Pertenço a uma geração que teve infância verdadeira. E com muita brincadeira. A maior parte, no quintal. Em uma mesma rua, no bairro de Casa Amarela, moravam meus pais, meus avós maternos e tias. Eram várias casas, todas com imensos quintais. Lembro-me que poucas frutas vinham da feira. Pois tínhamos manga (rosa e espada), goiaba (rosa e branca), jaca (dura e mole), banana, coco, mamão, abacate. Sempre à mão. Os vizinhos tinham tamarindo, pitanga, carambola, fruta-pão, jambo-do-pará e jambo comum. E sempre havia troca de frutos. Lembro-me que uma vez ganhei uma panela de jambos da vizinha e devorei tudo.

Sob a sombra da jaqueira do quintal brincávamos de boneca, de teatro, e até cozinhado (com fogo de verdade). Cozinhado, as gerações de hoje talvez não saibam. Era quando cozinhámos feijão no quintal, em panelas de barro que vinham da feira. Debaixo da jaqueira também assávamos castanhas de caju, em uma lata com fundo furado. A fogueira era improvisada com lenha do quintal e tijolos . Depois, com pedras, tirávamos as cascas queimadas e comíamos as amêndoas ainda quentinhas. Que criança, hoje, tem chance de se divertir assim? Galinhas? Sempre tinha algumas ciscando e cantando no quintal, avisando que tinham botado ovos. Minha avó costumava guardá-los para a galinha “deitar” (chocar).
Acompanhávamos o nascimento dos pintinhos e víamos eles crescerem. Vovó – cujo quintal era vizinho ao nosso – tinha mania botar os ovos de uma pata para a galinha chocar. Quando os patinhos nasciam iam direto para um tanque com água, nadavam, e a gente ria da cara espantada da galinha, sem entender nada. Aos sábados, meu pai reunia os amigos, para partidas de volibol. Sim, no quintal tinha uma quadra. Colocávamos as cadeirinhas à sombra para assistirmos a saques e cortadas, para torcer pelo time que tinha o maior número de pessoas da família. Lembro que no dia do meu casamento, realizado na casa de minha mãe, os convidados almoçaram no quintal, entre mangueiras, goiabeiras, jaqueiras e abacateiros, para lembrarmos as mais frondosas.
Era tudo muito agradável. Ou seja, na minha geração, quintal era parte de nossas vivências. Hoje as crianças vivem confinadas em apartamentos, o principal brinquedo é o jogo eletrônico no celular, e algumas têm medo até de um besouro soldadinho ou de uma pequena rã. Muitas não conhecem um pé de ingá ou nunca viram um sapoti. Não sabem nem o que é um mangará. Por que falo isso? Porque a partir do dia 16 de setembro, o Centro Cultural Cais do Sertão abriga a exposição “Quintais – Memórias Afetivas e Transformações Urbanas”, da fotógrafa Valéria Gomes. Ela propõe um mergulho poético no espaço que por décadas foi reduto de convivência familiar no Brasil: o quintal, espaço cada vez mais raro com a verticalização das cidades. Valéria sempre viaja ao interior a trabalho e foi percebendo como o quintal- cada vez mais raro nos centros urbanos – é importante na vida das pessoas, das famílias. Então, decidiu fotografá-los.
Na Região Metropolitana, fotografou alguns que ainda restam no Recife. E em Olinda, onde a vegetação ainda é abundante nos quintais do casario do sítio histórico. Também os registrou na Ilha de Itamaracá. No interior de Pernambuco, os registros são do município de Buíque, na Região Agreste. Há, ainda, fotografias de quintais em Periá, no Maranhão. “Por meio de imagens que resgatam a memória dos quintais rurais e urbanos, a mostra convida o público a refletir sobre a perda desses lugares diante da urbanização acelerada e a reconhecer sua dimensão simbólica como território de afeto, pertencimento e sociabilidade”, diz a fotógrafa. A mostra fica em cartaz até 30 de setembro, no Cais do Sertão. A entrada custa R$ 10, mas o acesso é grátis às terças feiras. O projeto, realizado com incentivo da Lei Aldir Blanc – iniciativa nacional de fomento à cultura.
Nos links abaixo, confira mais reportagens sobre quintais fotógrafo(a)s e fotografias.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Valéria Gomes / Divulgação

Eita viagem no tempo que eu fiz agora lendo esses seus relatos. Era isso mesmo, também tenho essa vivência, lembranca afetiva cheia de saudades. Minha infância foi num quintal grande, não tão quanto ao seu, mas era grande, cheio de fruteiras. Hoje as crianças não fazem menor ideia como era tudo isso.