“Álbum de família: itinerário afetivo”: Livro conduz leitor ao Sertão arcaico

Há alguns livros que nos transportam ao Sertão e ao Agreste, nos conduzindo a uma deliciosa, às vezes nostálgica e sempre inversa viagem ao tempo. Temos alguns exemplos recentes. Entre eles, “No Sertão onde eu vivia” (Zelito Nunes, Editora Bagaço) e “Memórias Afetivas – A avó contou. A neta escreve” (Fátima Brasileiro, Cepe) . Outros mais antigos, nos levam a anos ainda mais distantes, embora reeditados no século 21, como Um Sertanejo e o Sertão, Três Ribeiras e Moxotó Brabo (Ulysses Lins de Albuquerque, Coleção Terra Pernambucana, Editora Cepe). Agora, o público pode se considerar brindado com mais um título do gênero: “Álbum de família: itinerário afetivo”, de Ricardo Japiassu Simões. O livro será lançado a partir das 17h da sexta-feira (12/7), na Biblioteca Pública Estadual, no Parque Treze de Maio, área central do Recife.

Autor de  “Doce Futilidade” (novela), Dias Secretos (romance), “Uma árvore a cultivar – Um debruçar sobre o futuro” (ensaio), entre outras publicações, ele comemora o fato de ter uma obra editada pela primeira  pela primeira vez fora do estado (Penalux). Japiassu nasceu em Pedra, no Agreste – a 275 quilômetros do Recife – de onde saiu aos quatro anos, para residir em Arcoverde, no Sertão de Pernambuco, cidade em que realizou parte dos seus estudos. Mas a Pedra transformou-se em destino lúdico durante as férias. Era lá, na fazenda do pai, que o menino andava a cavalo, bebia leite no curral, curtia a casa dos avós e colecionava memórias dos antepassados. Na Pedra, ele ouvia as histórias da família e mergulhava na realidade dos seus ancestrais contada pelos parentes mais idosos.

E sobretudo garimpava fotos antigas, 50 das quais compõem o “Álbum de família: itinerário afetivo”,  reconstituindo uma saga que começa bem antes do início do século 20 e se estende por anos posteriores, quando  o “Coronel” Antônio Japiassu chega ao então pequeno vilarejo e constrói o casarão do clã, inaugurado em 1906. “Do janelão da sala de estar, avistava-se o olho d´água, mina que jorra do lajedo colossal que, por sua vez, concede o nome à localidade: Pedra, no Agreste Meridional de Pernambuco, para mim um Sertão”, lembra o autor.

Ele relata que os Japiassu foram os últimos a chegar ao rincão: “uma família numerosa, elegante e bonita”. Conta, no entanto que, antes, muitos outros antepassados já havia vivido por ali, enquanto os descendentes do Coronel Mariano Japiassu (Papai Velho, foto superior com quatro filhos), incluindo Antônio, chegariam depois, vindos da Paraíba. Mariano foi primeiro. Depois, os descendentes. Papai Velho parecia ser aquilo que hoje chamamos de “figuraça”: foi colega de Padre Cícero, era monarquista e abolicionista. “Comprava escravas para alforriá-las”.

E, em uma época que os filhos tidos fora do casamento eram encarados com preconceito, ignorados pela aristocracia e muitas vezes apagados da memória familiar, Papai Velho fazia o contrário: abrigava os “bastardos” no clã, a quem garantia acesso à educação.  Essas informações, o leitor vai colecionando ao longo da leitura do livro de Ricardo, construído, a partir de fotografias antigas que vão desde o Papai Velho até  Carlos Eduardo Japiassu Simões,  pai do autor, que sofreu um acidente de carro quando Ricardo era criança. O acidente atingiu o cérebro deixando o pai totalmente dependente. “Sem a proteção dele, minha vida tornou-se difícil. Tornei-me pai do meu   pai aos oito anos”. Depois, o acidente pôs fim à vida de Eduardo, “o dono da cidade”, liderança política na região.

Além de dramas e incidentes familiares – perdas, mortes, acidentes, doenças, emboscadas com assassinato – o livro, a cada foto, faz referência a festas como a de Reis, aos casamentos, aos pretendentes rejeitados pelas tias, aos empreendedores e amigos do clã (foto vertical), às mulheres da família. Tinha Bárbara (nome em homenagem a Bárbara Alencar (que participou da Confederação do Equador), a Tia Jacira (que costurava: “nada de depender de homem”), Tia Carmen Lúcia (que, destemida, e já morando no Recife atravessava uma mata a pé, para chegar à escola onde ensinava).

Ricardo refere-se, ainda, aos títulos  atribuídos naquela época a homens economicamente poderosos, como o “Capitão” Augusto e o “Coronel” Antônio, embora nenhum dos dois tivesse patente militar. Augusto e Antônio eram filhos de Mariano, o Papai Velho, que teve mais quatro varões e três filhas: Maria Purcina (Tia Cota), Bárbara (Mãe Abu) e Adelina. Adelina e Bárbara se casaram no mesmo dia, em 1906. Segundo as superstições da época, quando isso acontecia, uma impunha azar à outra. Abu ficou viúva  cedo e Bárbara morreu após o primeiro parto.

De minha parte, só tenho elogios para o livro. Sempre gostei de cartas, de memórias, biografias, de histórias da vida privada, dos subterrâneos das revoluções, dos heróis anônimos, de grandes mulheres que os livros ocultaram. A obra de Ricardo nos remete à história de um clã dos tempos dos “coronéis”, ao ambiente rural, secular e que alimenta suas memórias afetivas. Mas que nos conduz, também, à descrição de costumes e à realidade de uma época, descrita a partir de retratos de família.

Confira mais fotos na galeria abaixo:

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Serviço
Lançamento do livro “Álbum de família, Itinerário afetivo” (Editora Penalux) Autor: Ricardo Japiassu
Participam do lançamento: Raimundo Carrero, Cida Pedrosa, Xande da Rabeca

Quando: Sexta-feira, 12 de julho de 2024
Onde: Biblioteca Pública Estadual
Endereço: Rua João Lira, S/N, Santo Amaro (atrás do Parque Treze de Maio)
Horário: das 17h às 20h30
Preço do livro: R$ 60

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Acervo da família Japiassu

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