Conheça os “agentes culturais cangaceiros” que vão atuar no Sertão

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Uma vez, conversando com o saudoso escritor Ariano Suassuna (1927-2014), ele mostrou orgulho por ter sido chamado de “guerrilheiro” cultural por uma grande publicação do país, por conta de sua cruzada em defesa das nossas manifestações populares e por nelas ter se inspirado para criar o erudito Movimento Armorial.  O nosso querido guerrilheiro se foi, e nunca mais surgiu um tão contundente quanto à nossa brasilidade como ele.

Curioso é que agora acabam de aparecer agentes, não guerrilheiros, mas cangaceiros da cultura, acreditam?  Como o termo “guerrilheiro” era visto com reserva nos tempos da ditadura militar, o nome “cangaceiro” desperta polêmica até hoje, por estar associado aos bandoleiros que tocavam o terror na Caatinga do final do século 19 e começo do século 20. Sendo Virgulino Ferreiro, o Lampião o mais famoso deles. Mas para boa parte dos sertanejos, o cangaço é história, heroísmo, identidade.

Até porque o cangaço surgiu como uma reação ao poder dos “coronéis”  (como eram chamados os latifundiários), que exerciam no Sertão o papel de Estado já que este era mais ausência que presença nos grotões. Ou seja, o cangaço tinha sua razão de ser, no contexto social da época. Hoje, chega a ser cultuado no Sertão.

E tanto é assim que desde 1995 existe a Fundação Cabras de Lampião, que em 2009 virou ponto de cultura, para defender o legado cultural dos cangaceiros, como o a estética e o Xaxado, por exemplo. E valorizar o cangaço como inspiração na música, na dança, no mundo fashion, no teatro, no cinema, na literatura.  Em 2025, o Ponto de Cultura virou Pontão.

Cangaceiros , tendo ao centro Lampião e Maria Bonita: bandoleiros, heróis, história ou cultura?

Funcionando no Museu do Cangaço, no município de Serra Talhada, o Pontão  anunciou nesta semana os seis bolsistas que passaram em seleção para integrar a equipe de  “Agentes Cangaceiros da Cultura”, representando cada uma das regiões do sertão pernambucano.  Os agentes cangaceiros da cultura são: João Carlos dos Santos Diniz (Sertão do Pajeú ), Jullyano Jason da Silva Matias  (Sertão do Moxotó), Antônio Cláudio da Silva Mesquita (Sertão de Itaparica), Mariana da Silva Carneiro  (Sertão do São Francisco),  Vinícius Kaynan Borges Peixoto Alencar  (Sertão do Araripe), Ana Luíza do Nascimento Roque (Sertão Central ).

Eles vão trabalhar para promover a articulação entre os Pontos de Cultura do Sertão, formar a Rede Sertão Cultura Viva, desenvolver programação integrada entre os pontos, articular atividades culturais com redes temáticas de cidadania e diversidade, além de reconhecer e apoiar grupos e instituições como Pontos e Pontões de Cultura. O projeto tem como missão desenvolver, acompanhar, capacitar, mapear e articular atividades culturais junto a Pontos de Cultura, entidades, grupos e coletivos culturais de base comunitária do Sertão de Pernambuco, alinhado à Política Nacional de Cultura Viva.

Segundo Cleonice Maria, presidente da Fundação Cultural Cabras de Lampião, “A produção cultural do sertão pernambucano é pujante, histórica e representativa. Entretanto, a maioria das comunidades, povos, grupos e entidades carecem de informações, orientações e suporte técnico para organizar e projetar seus trabalhos, acessar recursos e garantir o pleno exercício dos direitos culturais.” A Fundação Cultural Cabras de Lampião atua no Cultura Viva, desde 2007, mobilizando redes culturais no Brasil e na América Latina, e ocupa cadeira titular no Conselho Estadual de Política Cultural de Pernambuco.

O escritor e pesquisador Anildomá Willans de Souza – idealizador da Fundação Cabras de Lampião  e do Pontão, afirma que “o nome Cangaceiros da Cultura foi pensado pelo simbolismo,  por Serra Talhada ser a terra de Lampião e por uma questão identitária”. Se o nome cangaceiro ainda é visto com um certo preconceito, já que na cabeça de muita gente cangaceiro e bandido são a mesma coisa, Anildomá rebate:  “Fazemos uma repaginação da história. Além do mais, temos orgulho de sermos conterrâneos de Lampião”. Para ele, chamar os agentes culturais de cangaceiros se reveste de alto valor simbólico. Serra Talhada, onde nasceu Lampião, fica  a 414 quilômetros do Recife.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Fundação Cabras de Lampião e   Benjamim  Abrahão/ Acervo #OxeRecife

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2 comentários

  1. Iniciativa interessante Letícia, essa que você nos trás sobre esses novos Cangaceiros que vão atuar como embaixadores da cultura dos sertões.

  2. Que bom! Será um maneira de espalhar o nossa cultura por todos os lugares de Estado e fora dele. E mais, ascender o orgulho da nação Pernambuco dá qual temos o maior orgulho, afinal temos história, cultura e patrimônios.

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