No século passado, uma notícia correu o Brasil. E vinha do interior da Paraíba. É que após anos de estudos, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolvera variedades de algodão orgânico que nasciam naturalmente coloridas. Ou seja, a sua fibra poderia se transformar em roupas, redes, almofadas sem que fosse usado uma grama de corantes sintéticos. Coleções ser lançadas e roupas à base do produto chegaram a brilhar eventos de moda e também em grandes feiras, na forma de camisetas, vestidos, shorts, bolsas, saias, macacões. Na época, cheguei a viajar ao interior da Paraíba para uma reportagem sobre o assunto.

A produção inicial era cidade de Campina Grande, a 133 quilômetros de João Pessoa. Posteriormente, estivera na cidade sertanejo de São Bento, para uma reportagem sobre a produção artesanal de redes que movimenta a economia do então pequeno município sertanejo, localizado a 383 quilômetros da capital paraibana. Na época, as mulheres fiavam e produziam as redes enquanto os homens ganhavam o mundo para vendê-las, chegando até a países vizinhos como o Paraguai e o Uruguai. O que eu não imaginava era que, em 2021, estaria falando do algodão orgânico e naturalmente colorido justamente em São Bento. Pois é lá que estão sendo produzidos artigos de cama e mesa que fazem sucesso no Brasil e no exterior.
Claro, o fator natureba hoje agrega valor a qualquer produto. Ou seja, a cultura do algodão colorido se expandiu, e hoje movimenta São Bento, onde antes não havia esse tipo de preocupação.
São Bento também é internacionalmente conhecida pela sua produção de redes, antes confeccionadas em sistema informal e familiar. Há pouco mais de 30 anos, no entanto, a atividade se ampliou com a .chegada da empresa têxtil Santa Luzia Redes e Decoração, que atua na produção de redes, almofadas, jogos americanos, mantas e outros produtos para a vida doméstica. Detalhe: sua principal matéria prima é justamente o algodão orgânico e colorido, produzido na agricultura familiar no Sertão da Paraíba. A empresa fez parceria com 400 famílias que atuam com a agricultura familiar e produção artesanal de peças. A atividade beneficia pequenos produtores. E o algodão é produzido sem inseticida, herbicidas, fungicidas nem outros insumos químicos. E sua fibra não precisa de aditivos nem corantes. Hoje, o agricultor engajado nesse tipo de produção não manuseia produtos tóxicos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.
O detalhe curioso do algodão é nascer no semiárido, região de baixo índice pluviométrico, e gerar uma grande safra sem irrigação, informa a Santa Luzia.
Mesmo com o processo slow (devagar) que tem do cultivo ao acabamento um trabalho artesanal, os produtos feitos pela empresa chegaram a outros cantos do Brasil e do mundo. Atualmente, no entanto, produzem uma linha de panos comercializada por uma marca de produtos de limpeza e autocuidados sustentáveis, a Positiv.a. Marcella Zambardino, co-CEO da marca, conheceu o proprietário da empresa, Armando Dantas, em um evento e propôs um desafio de criarem um produto juntos. Armando Dantas, CEO da Santa Luzia Redes e Decoração, comenta que foi preciso um ano inteiro de estudos e testes para chegar ao produto ideal, mas que a busca valeu a pena.
Hoje, com a linha de panos eles aumentaram a compra garantida de algodão orgânico, que garante um preço justo tanto para o agricultor como para o comprador. Só em 2020 houve o aumento de 300% do plantio da matéria prima. Em 2019 eram 20 hectares sendo plantados, em 2020 o número subiu para 60 hectares e em 2021 já são 100 hectares com o plantio do algodão. Além disso, a nova demanda fez com o que o time de costureiras aumentassem em 50%. Aumento de demanda é bom, claro. Mas será que um algodão tão especial não está mal aproveitado em panos de limpeza? Tipo de utilização de material tão nobre à parte , a Santa Luzia tem 120 funcionários diretos com 20 teares mecânicos na fábrica, sendo 20% são dedicados exclusivamente para a Positiv.a. Em São Bento, a produção de redes continua firme. É a tradição do lugar. E também o ganha pão de quase toda a população.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação /Santa Luzia
