Além das quase 60 premiações que já arrebatou por esse mundo afora, o filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, bem que merecia ganhar um prêmio diferente, por despertar nos jovens o interesse pela história recente do país, e sobretudo por ter provocado a curiosidade da meninada em conhecer melhor a cidade em que vive. Pelo menos, foi essa a impressão que tive, na manhã de hoje, ao fazer o roteiro “O Recife do Agente Secreto”, ofertado pelo Olha! Recife, projeto de sensibilização turística implementado pela Prefeitura.
Já fiz muitos roteiros do Olha! Recife, pois gosto de percorrer o centro e outras partes da nossa querida cidade, quando as ruas estão vazias, como é o caso dos domingos. Pois bem, nesse domingo encontrei uma turma que, ao meu ver, tem a mais jovem faixa etária entre as de todos os passeios que já participei pelo projeto. Além disso, havia garotas com a camisa amarela, do Clube Pitombeira, de Olinda. Aquela que Marcelo, interpretado pelo ator Wagner Moura, usa no filme e que virou sonho de consumo de muita gente. Está vendendo feito peixe na Semana Santa. Tanto é assim, que a agremiação carnavalesca já juntou recursos para custear o desfile de 2026 e de 2027.

Detalhe: grande parte da garotada que participou do passeio, que é gratuito, entrou pela primeira vez no São Luiz nesse domingo. Todos deslumbrados com a beleza do cinema, datado de 1952, e que ganha protagonismo não só em “O Agente Secreto”, como em “Retratos Fantasmas”, penúltima produção do cineasta pernambucano.
Em “O Agente”, o sogro de Marcelo, Seu Alexandre (Carlos Francisco) é o projecionista do São Luiz, ícone dos cinemas de rua do Recife e tido como um dos mais bonitos do país. As portas do cinema foram abertas, hoje, só para visitação, mas infelizmente os vitrais que ficam nas laterais da tela não foram acesos. São magia pura. Sonho com eles desde meus tempos de criança, quando ia ao cinema com meu pai, e pensava mais no aceso par de jarros de vidro colorido do que no filme que ia ver. Na Galeria de fotos abaixo, veja parte do passeio do domingo, 18.
Por questão de logística, o roteiro do Olha! Recife não seguiu a ordem cronológica das cenas do filme. Saímos da Praça do Arsenal e, para ligar os pontos, passamos pela Marquês de Olinda (Folha de Pernambuco, onde a gráfica do jornal foi usada como uma das locações). Em seguida, andamos pelo Cais do Apolo, Ponte Buarque de Macedo, Avenida Martins de Barros, Rua do Imperador, Av. Dantas Barreto, Rua Siqueira Campos, Rua Alarico Bezerra (Chá Mate Brasília, no Edifício Brasília), Av Guararapes (prédio dos Correios), Ponte Duarte Coelho, Rua da Aurora (Cinema São Luiz).
Também passamos pela , Rua Sebastião Lins (Beco da Fotografia), que fica na lateral do Cinema São Luiz e Rua Machado de Assis (Edifício Tereza Cristina). Depois, Rua do Riachuelo, Rua da União (onde ficam prédios que serviram como locações) e novamente Rua da Aurora ( Ginásio Pernambuco). O GP “transformou-se” em cartório, e no seu interior foram gravadas 25 por cento das cenas do filme, inclusive as mais eletrizantes. No pátio interno foi colocado o orelhão que atualmente encontra-se em exposição no saguão do São Luiz, e que virou instagramável. Todo mundo quer ser fotografado no equipamento.
No ano passado, então recém empossado como gestor do GP, o professor Antônio Rosa disse que tomou um susto quando assumiu o cargo. Ao chegar no Ginásio, deparou-se com tudo fora do lugar. “Na sala de gestão, não podia entrar porque era o camarim de Wagner Moura”, diverte-se, lembrando que a equipe de produção se preocupou com detalhes que iam das mudanças das tomadas 2P (dois polos) à retirada de aparelhos de ar condicionado do velho prédio. “As filmagens aqui dentro duraram 15 dias, mas a produção deixou tudo como encontrou”, lembra ele. Afirma que embora o GP não represente uma escola em “O Agente Secreto”, a curiosidade pelo seu prédio histórico aumentou muito após o filme. “O número de visitas dobrou”.
O sol estava castigando demais e não consegui ficar até o final do passeio, que deveria se encerrar no Parque Treze de Maio, onde há cenas de pegação e da ação da Perna Cabeluda, uma lenda urbana que surgiu naquela época e que até hoje alimenta o imaginário popular da população do Recife. Também não visitei a Vila Santo Antônio (na Rua do Riachuelo, onde era feito acolhimento de perseguidos políticos e no qual havia a gata de duas cabeças). As cenas externas (chegadas, saídas, carnaval) foram gravadas na Vila, mas as interiores (no apartamento) ocorreram em um outro prédio, o Ofir, no Espinheiro.
O roteiro “O Recife do Agente Secreto” vai voltar a ser repetido no Olha! Recife. Na segunda (19/01) informamos os dias dos roteiros sobre o filme.Tomara que com esse interesse todo, os nossos gestores dispensem maior cuidado ao centro do Recife, onde o gramado das praças e das margens do Rio Capibaribe estão parecendo areais, totalmente secos. E que também faça recolocação de pedras portuguesas em calçadas como as da Praça da República. No roteiro, vi duas pessoas tropeçando por conta de calçadas irregulares. Lixo, até que não tinha muito nas ruas. Deve ser porque o comércio é fechado no domingo.
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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife
