Polêmica desde o início, a implantação de um lojão do Atacado dos Presentes no Poço da Panela tem, pela frente, mais uma pedra no sapato. É que a Secretaria Estadual de Cultura deferiu o pedido de tombamento do campus Casa Forte da Fundação Joaquim Nabuco. Com a decisão, nenhuma nova construção pode ser erguida no entorno do terreno onde ficam os prédios da Fundaj até que o processo seja concluído. O pedido, no entanto, ainda tem um longo caminho a percorrer na burocracia estatal.
O pedido passa por análise na Gerência de Preservação Cultural da Secult e no setor jurídico, edital de tombamento, prazo de contestação, homologação pelo governador. Mesmo assim, o deferimento do pedido foi comemorada entre os moradores do Poço, que lutam para transformar o terreno destinado ao lojão em uma área verde de convivência naquele que é um dos últimos bairros bucólicos do Recife e cujo casario secular ainda é preservado. Os imóveis que a Fundaj pretende preservar são três: o Solar Francisco Ribeiro Pinto Guimarães, o Gil Maranhão e o Paulo Guerra. O pedido foi deferido pelo Secretário Gilberto Freyre Neto, cujo avô foi quem concebeu a Fundaj (que tem unidades, também, em Apipucos e no Derby).

“No momento em que o pedido foi deferido, toda a área de tombamento está sob proteção prévia”, afirma o Presidente da Fundaj, Antônio Campos. A solicitação foi atendida em tempo recorde: dezoito dias. A Fundaj também tem unidades em outros bairros do Recife. Em Apipucos, funciona em casarão que pertenceu ao empresário Delmiro Gouveia (1.863 – 1917). Já no Derby, a sede é um dos exemplares da arquitetura Art Déco no Recife. No caso do pedido de tombamento do campus Casa Forte, o mesmo foi encaminhado, também, ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O Solar foi erguido no século 19, e é o marco zero para a criação do instituto de pesquisas que se transformaria depois na Fundaj. O Gil Maranhão é datado de 1960, e é o prédio onde estão instalados o Museu do Homem do Nordeste e o Cinema do Museu. Já o Paulo Guerra foi construído em 1980 e fica vizinho ao Solar. A importância do conjunto, no entanto, não se restringe a pedra e cal, como salienta a antropóloga Ciema Mello:
“A Fundação Joaquim Nabuco é, sem favor, um percurso de interpretação do Brasil. Seus prédios não têm valor, apenas, por suas qualidades arquitetônicas, mas, também, por abrigar suas memórias. Possuem mágoas, sucessos e sonhos. Não são simples prédios. Verdade é que já lhes pesam os anos, mas são de Casa Forte. São Leões do Norte! Senhoras e Senhores, concedam-lhes proteção pelo que já fizeram, mas, sobretudo, pelo muito que ainda certamente farão pelo futuro da cidade. De Pernambuco. E do projeto republicano brasileiro”.
O processo para a construção do Atacado dos Presentes vinha tramitando normalmente na prefeitura, até que começou a ser bombardeado por moradores do Poço e Casa Forte, que exigem uma outra finalidade para o terreno onde funcionou a histórica e já demolida Casa de Saúde São José. Eles dizem que o local não é adequado e que o bairro não possui infraestrutura suficiente para receber empreendimento daquela natureza e daquele porte. Mas a sua implantação também deflagrou uma verdadeira guerra entre os moradores da Zona Norte, inclusive com abaixo assinados virtuais, contra e a favor do empreendimento. Até a Fundaj lançou, também, seu abaixo assinado se posicionando contra o empreendimento. Na semana passada, a licença prévia para a construção foi suspensa pela Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano do Recife (Semoc), que exige estudos do impacto ambiental e na mobilidade da área. Tanto o terreno da loja quanto da Fundaj ficam na Avenida Dezessete de Agosto, uma das vias de trânsito mais estrangulado da Zona Norte.
Veja outras informações sobre o caso nos links abaixo.
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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife
