Bichinho muito útil no controle de insetos mas infelizmente associado a bruxarias ao longo dos séculos – até mesmo em contos de fadas – o sapo cururu não é visto com tanta frequência em áreas urbanas, como ocorria até o início desse século. Infelizmente com o aterro de riachos, rios poluídos e a cidade cada vez mais ocupada pela selva de concreto, o anfíbio está ficando mais escasso.
No bairro onde resido, em Apipucos, que tem rio e açude, ele ainda é visto e às vezes até entra em residências. O animal é alvo, também de muita maldade. Tem quem jogue sal em seu couro, o que lhe causa muito sofrimento. Para o sapo, a dor é a mesma de alguém que recebe um jato de pimenta nos olhos. Ou uma queimadura no corpo. Há, também, quem fure o sapo com alfinete, em sessões de feitiçaria, nas quais a boca imensa do animal chega até a ser costurada. No início da década passada, ficou famoso o caso da cidade mineira de Buritizeiro, onde vários sapos foram encontrados na sede da Prefeitura ou na casa do Prefeito Padre Salvador Raimundo (PT), que vivia às turras com a oposição. Eles tinham a boca colada ou costurada, no interior da qual foram encontrados pedaços de papéis com o nome do petista. Ou seja, sem a menor culpa, o sapo pagou as contas do ódio humano. E também da cabeça miúda dos políticos.

A maldade humana não tem limite. Nesta semana, uma moradora do município de Jaboatão dos Guararapes – vizinho ao Recife – achou um sapo com a boca colada em um cemitério da cidade. Ainda bem que a bondade existe. A dona de casa recolheu o animal e o levou à Unidade Básica de Saúde Pet de Jaboatão.
Em casa ela deu início ao procedimentos, para descolar a boca do sapo, usando cotonete e até uma tesoura. Mas logo em seguida o conduziu ao UBS. A veterinária Nathália Gouveia atendeu ao cururu, e depois o encaminhou ao Centro de Triagem de Animais Silvestres da Cprh (Cetas Tangara). O gestor do Cetas, Yuri Marinho, informa que o animal silvestre é da espécie popularmente conhecido como sapo-cururu, e que pelo tamanho aparenta ser uma fêmea adulta. Tem ferimentos nas costas (foto menor) e na boca por conta da cola. Marinho explica que após o anfíbio se reabilitar será solto na natureza.
Ele ressalta a importância dos anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas) para o meio ambiente, pois são responsáveis pelo controle de diversos insetos, além de outros invertebrados. “Por se tratar de animais muito sensíveis, a ausência deles indica que o ambiente está poluído, ou seja, sua presença serve de alerta para indicar se o ambiente está ecologicamente equilibrado, revela o gestor. Ou seja temos aí um mau sinal, porque os sapos estão rareando na paisagem urbana. Antes eram vistos com muita frequência. Na minha casa sempre vinha um cururu.
Virou de estimação. Malandro, subia a escada do quintal todas as noites para afanar a ração de um gato persa da família que, infelizmente, já faleceu. Um dia, o cururu subiu no balcão da copa e ficou lá por dois dias, inerte. Não fez sujeira, deixou tudo como encontrou. Depois, pulou para o chão. Cocei a cabeça dele com o dedão do pé,e ele ficou todo dengoso. Até fechou os olhos, e pensei que mesmo sapos da chamada “casca grossa”gostam de carinho. Mas casa não é lugar de sapo. Aí o tangi para o quintal e ele se foi. Para sempre. Deve ter ficado com raiva porque foi “expulso”… Abaixo, algumas curiosidades sobre animais silvestres.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Cprh / Divulgação
