Três novas unidades de conservação têm animais ameaçados de extinção

No Dia da Consciência Ecológica, celebrado em 22 de dezembro, vamos falar na natureza aqui em Pernambuco? Ou melhor, da biodiversidade no que resta às margens do nosso Rio Capibaribe, que atravessa nada menos de 42 municípios pernambucanos.  Criadas para preservar nascentes, margens e o próprio Rio Capibaribe, as três novas unidades de conservação de Pernambuco possuem brejos de altitude, caatinga e até áreas cada vez mais raras de cobertura vegetal nunca suprimida. Não surpreende, portanto, que possuam flora e fauna muito ricas, além de espécies ameaçadas.

Quando falo da biodiversidade brasileira – ou nordestina – lembro-me de um botânico inglês que entrevistei uma vez, após uma expedição à Chapada Diamantina (BA), onde ele foi pesquisar plantas rupestres. Do pesquisador, só lembro o primeiro nome: Simon. Nunca esqueci uma frase que cientista disse: “Só no Pico das Almas, encontrei quantidade de espécies maior do que todas que temos na Inglaterra”. Referia-se a uma montanha na Chapada Diamantina, na Bahia. Imaginem! Pois vejam só o que essas três novas  UCs oferecem, uma grande variedade de espécies vegetais e animais, alguns cada vez mais raros na natureza, como essa lindeza da foto abaixo, o pintor verdadeiro,  espécie endêmica da Mata Atlântica que vive próximo ao Litoral do Nordeste, mas também encontrado na Região Agreste.

Na maior das UCs, a APA Serras e Brejos do Capibaribe, a flora se apresenta com 557 espécies de 107 famílias botânicas. Já a fauna conta, “somente”  com 261 espécies, sendo 239 aves e 22 mamíferos. Há  espécies endêmicas e ameaçadas. Entre as aves tidas como vulneráveis estão a jacucaca (Penelope jacucaca), maria-do-nordeste (Hemitriccus mirandae), pintor verdadeiro (Tangara fastuosa), bico-virado-miúdo (Xenops minuts), choca-da-mata (Thamnophilus caerulescens), cuspidor-de-máscara-preta (Conopophaga melanops), entre outros.  O pintor tem bela plumagem (sete cores), sendo muito visado pelo tráfico de animais silvestres.

Entre os mamíferos da APA em situação classificada como vulnerável estão: onça parda ( Puma concolor), gato mourisco (Herpailurus yaguarondi) e o tão conhecido mocó (Kerodon rupestres). Há, ainda, o gato-do-mato (Leopardus tigrinus), também em perigo, situação que acomete três espécies de aves: chupa-dente-do-Nordeste (Conopophaga cearae), formigueiro-de-cauda-ruiva (Myrmoderus ruficauda) e tatac (Synallaxisinfuscata). A APA Serras e Brejos do Capibaribe é a maior das três novas UCs. Possui 73.781 hectares, que se espalham por quatro municípios: Brejo da Madre Deus, Taquaritinga do Norte, Belo Jardim e Vertentes, todos no Agreste e integrantes da Bacia do Capibaribe. Com a devastação de matas, a onça parda é apenas um exemplo do problema que sofrem os mamíferos de grande porte no Nordeste.

O gato mourisco (foto) é outro animal ameaçado, encontrado nas unidades. A espécie é vítima não só da destruição de matas, como também da caça. Em julho, um filhote da espécie chegou a ser confundido com um bichano por um agricultor. O animal foi recolhido ao Cetas Tangara, para posterior reintrodução à natureza. Já o levantamento florístico realizado no Refúgio da Vida Silvestre Cabeceiras do Rio Capibaribe, indicou 282 espécies.

A fauna apresenta 148 espécies de aves e 17 de mamíferos, havendo, também, endêmicas e ameaçadas. Algumas dessas espécies também são encontradas na APA Serras e Brejos do Capibaribe como a jacucaca, o mocó e o gato do mato. O RVS tem 6.926 hectares e espalha-se pelos municípios de Jataúba e Poção, onde fica a Serra do Jacarará com a nascente do Capibaribe.

A menor das três novas UCs é o Refúgio de Vida Silvestre Mata do Bitury. São 888 hectares, entre os municípios de Belo Jardim e Brejo da Madre Deus. Mas, como diz o ditado, tamanho não é documento. Esse RVS é importantíssimo. É que “possui o mais extenso e preservado dos remanescentes de mata úmida de altitude do interior da Bacia do Capibaribe, com cobertura vegetal nunca suprimida”. Pelo menos, é o que assegura José Bertotti, Secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco. Sua flora tem 290 espécies catalogadas. E a fauna, 154 espécies de aves, das quais nove estão em ameaça de extinção. Os mamíferos no RVS somam 21, sendo três também sob ameaça de extinção. Ou seja, as três UCs são importantíssimas para manter, pelo menos, um pouco equilíbrio da já tão degradada Bacia do Capibaribe.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Lu Rocha/ Semas-PE e Cprh/ Acervo #OxeRecife

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