Abandonada e em franco processo de decadência nos últimos anos – até lixo havia ao redor de sua fonte – a Praça Dezessete finalmente recuperou a imponência, na medida adequada de sua importância histórica. Por tudo que representa para o Recife, ela merece. A partir de agora, sua conservação e manutenção ficarão sob responsabilidade do Tribunal de Justiça de Pernambuco, após acordo de processo de adoção firmado com a Prefeitura do Recife.
Mas me pareceu estranho que nenhum dado sobre a restauração “realizada pela Prefeitura” tenha sido divulgado nos relatos oficiais. Pois a cada recuperação, normalmente o poder público diz o valor investido e quais as intervenções realizadas, o que não havia acontecido nesse caso. Fiquei curiosa. E fui saber o que ocorreu. É que todo o serviço de recuperação foi realizado pela LMA Empreendimentos Ltda, tratando-se de uma ação mitigadora celebrada com o poder público municipal (no caso, vinculada à obra do Empresarial Grand Tower Shopping, situado na Rua Bruno Veloso, 1280, em Boa Viagem).
Sim, as ações mitigadoras são sempre bem vindas. Na Praça Dezessete, o serviço de recuperação durou dez meses e custou R$ 1.650.000 à empresa. E envolveu várias ações: a recomposição dos jardins com o plantio de grama nos canteiros, iluminação para a praça, restauro e reposicionamento dos bancos, limpeza e recomposição dos trechos com perda dos pisos tipo pedra portuguesa e em pedra tipo ardósia. As estátuas que ficam na Praça – o Monumento ao Aviador e o Monumento da Liberdade – foram restauradas por empresa especializada (Karla Grimaldi Arquitetura, Conservação e Restauro). Mas para que tudo acontecesse, foi realizada uma pesquisa histórica, elaboração de mapas de danos e projeto do restauro (realizados pela empresa J e L Tinoco Restauração).
A ideia de restauração da Praça aconteceu entre 5 e 9 de abril de 2024, quando o Presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), Ricardo Paes Barreto, ficou como Prefeito interino do Recife.
Ou seja, em quatro dias, ele pensou no que gestões antigas e recentes deixaram passar por muitos anos. Barreto – como quase todo recifense – tem ligação afetiva com a Praça, mas a dele é mais especial. É que a Dezessete fica ao lado do Fórum Thomaz de Aquino, que funciona no prédio do antigo Grande Hotel. “A praça se encontrava degradada, com monumentos pichados e destruídos. Por isso, quando assumi a Prefeitura, solicitei a oportunidade de contribuir para preservação do patrimônio histórico”, diz o Desembargador. E bota histórico nisso. Primeiro, a Praça homenageia a Revolução Pernambucana de 1817, um dos fatos mais marcantes da história do nosso estado. Fica no terreno do antigo Colégio dos Jesuítas, que após a expulsão da ordem foi usado como sede do governo provincial. Em uma de suas salas, em 1822, foi instalado o Tribunal da Relação de Pernambuco, o embrião do TJPE. Tem mais. No Colégio, funcionou a Faculdade de Direito do Recife a partir de 1882, o que ocorreu até 1912, quando a FDR mudou-se para a sede definitiva.
O paisagismo da Dezessete tem a assinatura de ninguém menos que Roberto Burle Marx (1909-1994), motivo pelo qual a praça é um dos 15 jardins históricos do Recife, todos a ele atribuídos. Por fim, em 1859, desembarcavam no hoje chamado Cais do Imperador – em frente à Praça Dezessete- o Imperador Pedro II e a Imperatriz Tereza Cristina. Falta, agora, a Prefeitura restaurar o Cais que é lindo e está abandonado. É só arranjar outra empresa para “mitigar”, não é? Também não custa nada correr atrás de dinheiro do PAC para recuperar o casario e a Igreja do Divino Espírito Santo. Aí, sim, o lugar todo ficaria lindoooooo!
O #OxeRecife comemora a recuperação da Praça Dezessete. A situação precária e de abandono já vinha sendo denunciada aqui nesse espaço desde 2018. Vejam a situação por mim retratada, mais uma vez, em 2023, na foto abaixo. Triste mesmo… Nos links no Leia também, outras informações sobre as praças da área central da cidade.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Alison Matias (Divulgação) e Letícia Lins (Acervo #OxeRecife)
