Moradores de bairros como Casa Forte, Monteiro, Dois Irmãos, Poço da Panela, Santana, Macaxeira, Apipucos – como é o meu caso – estão se perguntando porque foi proibida a realização da feirinha de produtos orgânicos que acontecia às quintas feiras, nos jardins do Museu do Homem do Nordeste, que pertence à Fundação Joaquim Nabuco. Eram apenas três barracas de pequenos produtores, todos com licenciamento da Secretaria de Agricultura. E, portanto, com produtos realmente isentos de agrotóxicos. Ou seja, hortigranjeiros totalmente confiáveis.
Eles são de Chã Grande, cidade localizada a 83 quilômetros do Recife, ainda na Zona da Mata, mas com paisagem de Agreste e região conhecida pela disseminação de lavouras orgânicas. Há uma feira orgânica grande na Praça de Casa Forte, mas que ocorre nas manhãs do sábado, dia que normalmente a gente quer mesmo é estar em uma praia. Há outras que funcionam por perto, mas em boa parte não vejo o uso de crachás que certifiquem a origem dos produtos e a julgar por cenouras de mais de um palmo de comprimento, não devem ser orgânicas mesmo.
Então… já fico desconfiada. Às quintas-feiras, sempre saía de casa por volta de 5h30 e voltava com a sacola cheia: alface, acelga, couve manteiga, couve-flor, espinafre, coentro, cebolinha, pimentões, tomates, tubérculos, verduras de toda sorte, ovos caipira, goma para tapioca. E com frutas como banana prata (muito docinha), banana comprida, laranja mimo (a mais gostosa que conheço), abacates perfeitos, mamões idem entre outros. De quebra, Marcione quando tem tempo ainda traz uns potinhos de compota (mamão verde, banana).Tia Nice sempre vinha com uma canjiquinha pronta.

Vários clientes dos três produtores e feirantes – todos da agricultura familiar e vivendo com dignidade do que colhem dos seus sítios – me perguntaram o que houve. Não sei. Ninguém sabe. Nem aos feirantes foi dada explicação convincente. Perguntei à Fundaj, mandaram falar com o Museu do Homem do Nordeste, em cujos jardins ficava a feirinha. O Museu mandou falar com a Diretoria de Planejamento, que orientou para procurar a assessoria de imprensa, que até hoje não deu resposta. Silêncio, e só. Enquanto isso, os três – Marcione, Gerson e Rejane (casal de produtores), e Tia Nice (que chamo de tia mas não é minha tia) – estão tentando se virar.
Marcione (81-992486750) se organizou e na última quinta-feira já recebi minhas encomendas em casa, pagas depois com PIX (eu não estava, quando chegaram). Rejane e Gerson estão se estruturando para fazer as entregas aos clientes deles (81- 992413338). E Tia Nice (81-989257931) também está se organizando para fazer entregas no Recife. Talvez, junto com Marcione. “O que sobrar vou vender em Chã Grande mesmo”, diz Marcione, que só expunha seus produtos na Fundaj e tem uma grande quantidade de clientes no Recife. Realmente, o órgão prestou um desserviço a todos aqueles que buscam alimentação saudável, no meio do mar de veneno de onde são retirados hortigranjeiros plantados em escala industrial e comercializados em supermercados. A Fundaj deve sim uma explicação não só aos clientes como aos feirantes, que foram privados do seu habitual ganha pão sem prévio aviso.
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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife
