Diva é diva. Tem cara, jeito, pose, imponência, voz de diva. Não é à toa que a convidada do Projeto Baião de Dois dessa quarta-feira (27/01) se chama Diva Menner, a primeira mulher trans a se apresentar no The Voice Brasil (da TV Globo) e figura tarimbada pelo seu vozeirão nos palcos do Recife. Acompanhava o trabalho de Diva, antes mesmo de saber que ela era Diva Menner. Pois a vi cantar, em grupo ou em dupla no maravilhoso Projeto Música no Palácio, que ocorria uma vez por mês no andar térreo do Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual, no bairro de Santo Antônio.
As apresentações eram mensais e aconteceram até antes da pandemia, por iniciativa do Conservatório Pernambucano de Música, que não mede esforços para democratizar o acesso a música de qualidade no estado, seja erudita ou popular. Depois, vi Diva Menner cantando com Ciel, no Projeto Cestas de Música, que – também antes dos tempos pandêmicos – ocorria no auditório do CPM. Os dois deram um show maravilhoso, e quem assistiu saiu flutuando da apresentação. Inclusive meu amigo, escritor e acadêmico Cícero Belmar, a quem eu dera a sugestão de um bom programa para a noite daquela sexta.
“Letícia, obrigado pela dica, não sabia que ia ver um show tão maravilhoso”. Foi em 2019. Mas mais de um ano depois, ainda lembramos da apresentação da dupla Ciel e Diva. Simplesmente porque foi um show inesquecível. Diva fez a transição sexual, porque se considerava antes uma “artista sem alma”. Uma vez assumida sua “soul” feminina, a artista a soltou de vez: na voz, no corpão, nos gestos em cena. E transformou-se em diva de verdade. Desde pequena, ela gostava de cantar em casa sucessos de Alcione, Sandra Sá, Whitney Houston. Aos 19, começou a educar a voz estudando canto lírico no Conservatório Pernambucano de Música, onde durante sete anos se preparou para estrelar nos palcos.
Passou um tempo cantando com Garçons Cantores em uma casa noturna da Zona Sul, passando também a se apresentar em bares, casamentos, festas particulares, eventos culturais oficiais como o Música no Palácio e o Cestas de Música, ambos do CPM e e algumas das marcas de Roseane Hazin (de longe a melhor e mais dinâmica diretora que já passou pela instituição). Diva já se apresentou como solista da Orquestra Pernambucana de Câmara, em palcos nobres como o do Teatro Santa Isabel e do Festival de Inverno de Garanhuns. Diva hoje é uma mulher feliz com sua vida, sua alma. Em entrevista recente, disse sentir-se realizada porque consegue ” viver com a própria arte”, que lhe permite “pagar contas”, lembrando da situação de travestis que vendem o corpo porque não encontram oportunidades de trabalho. Ao aparecer, com toda sua imponência no The Voice, com o corpo coberto por uma roupa colada preta e dourada, escolheu a visceral música Carne, de Elza Soares, que tem tudo a ver com a sua história de vida. E, ao se apresentar, incluiu um verso autoral: “Desembarcar nesse século e ser uma mulher trans e preta que fala quando canta”. Tudo a ver com ela, uma diva do século 21. Hoje, a partir das 19h horas, ela é a entrevistada do programa Baião de Dois, capitaneado por Gonzaga Leal, terapeuta que trocou o consultório pelos shows (também é cantor) e que agora criou esse espaço em rede social para divulgar o trabalho de artistas que, como ele, amam a música, o público e o palco iluminado.
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Serviço:
O quê: “Baião de Dois”
Com quem: Gonzaga Leal entrevista Diva Menner
Onde: Na Web, Instagram (@gonzagaleal e @divamenner)
Quando: Quarta-feira, 27/1
Horário: 19h
Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação