Para mim, ler é como comer. Ou seja, uma atividade essencial para a própria vida. Se a comida alimenta o corpo, o livro – claro – alimenta a alma. E o hábito veio dos tempos de criança. Separava uma parte de minha mesada de menina pra comprar uma revistinha que adorava, chamada Diversões Escolares. Nela havia publicações sobre tantas coisas… Lugares distantes e misteriosos – e por isso mesmo fascinantes – animais que não conhecia à época (como os coalas e os ornitorrincos), informações históricas. Ao mesmo tempo, me empanturrava com as histórias de Hans Christian Andersen (1805-1875), ao invés de mergulhar nas aventuras de Narizinho, Emília e Dona Benta, – criadas por Monteiro Lobato (1882 – 1948) – e que mexiam com as crianças de minha geração.
Também amava a versão infantil das Mil e Uma Noites, lendo histórias que me encantam até hoje como Simbad, o Marujo e Sherazade, que, mesmo adulta, não canso de ler. Adoro! Para mim, Simbad é um exemplo de superação e como viver com criatividade. Já Sherazade... que história… É demais: tem corno, feminicídio, esperteza e intuição femininas, também. Mas foi na pós adolescência que, mais uma vez nas bancas de jornais, iria me deslumbrar com a leitura. Daquela vez com a Coleção Imortais da Literatura, da Editora Abril. Naquele tempo, que não tinha Internet, os livros eram a melhor forma de passar o tempo e de aprendermos as coisas. Não lembro se os volumes – 50 ao todo – eram semanais, ou mensais. Mas sei que completei coleção. Inteirinha.
Cada livro vinha acompanhado de um folheto com biografia do autor, com fotos ou ilustrações, dependendo da época. Todos os folhetos foram encadernados, e mantenho o volume até hoje. Àquela época, descobri alguns dos livros de minha vida: Ana Karenina, As Vinhas da Ira, O Vermelho e o Negro, Servidão Humana, A Morte em Veneza e O Estrangeiro. E ainda, Germinal e Judas, o Obscuro. Os dois últimos me deixaram em um baixo astral tremendo. O primeiro me provocou insônia, pois acabei de ler pouco antes da hora dormir. Fiquei totalmente perturbada. O outro é de uma tristeza sem fim. A história daquele cara que, como diz a gíria, não nasce com “uma estrela na testa”. Mas com uma “estrela na bunda”. Um absurdo kafkiano. Anos depois, voltei a ler os dois últimos e quase entrei em depressão. Ana Karenina, no entanto, é o meu predileto até hoje. Já li três vezes. E acho que um dia ainda leio de novo! Não consigo me desfazer dessa coleção, com livros de capa dura e vermelha e letras douradas (algumas já apagadas pelo tempo). Tenho-a guardada com o maior carinho. E muito amor.
Minha filha mais velha, Joana Carolina, também leu grande parte. E dia desses me perguntou se seria possível se comprar essa coleção inteira, da forma como foi concebida. Não, não pode. Já não se fazem mais coleções como antigamente, nesses tempos de livros virtuais. Só se for em sebo. Está na coleção, também, um dos livros prediletos de Thiago, o filho caçula: As Vinhas da Ira. Esse volume nos conduziu a uma busca desenfreada por todos os títulos de Steinbeck. O fato é que, vez por outra, pego um livro dessa coleção para reler. E fico impressionada como volto a grifar tudo que grifara antes, e mais alguma coisa. Penso que, com a maturidade, a gente vai descobrindo coisas novas, outros ensinamentos, colocações que podem nortear as nossas vidas. Li Servidão Humana (Somerset Maugham) aos 21 anos. Durante o isolamento social provocado pela pandemia, resolvi ler de novo. Resultado: fizera, naquela época, 16 anotações sobre o que lera e o que no livro aprendera. Em 2020, elas foram mais de 40, ao longo das 563 páginas lidas.
Há muitas pérolas ao longo do livro.”Se a vida não tem sentido, o mundo fica despojado de sua crueldade”, pensa o personagem Philip, durante os insucessos de sua trajetória existencial que, pelo menos, tem um final feliz. Nesta semana, apelei à Coleção. Queria ler Os Miseráveis, de Victor Hugo (1802-1885), vontade que me deu ao escrever uma reportagem aqui no #OxeRecife sobre o descalabro dos esgotos da nossa cidade. E que os de Paris o teriam inspirado passagens de Os Miseráveis. Achei que o deixara escapar entre as 50 leituras. Mas estava enganada. Os trabalhadores do mar era o título do volume do célebre escritor francês, na minha coleção de estimação. Que pena… Até porque minhas estantes estão super lotadas e não gosto de livro virtual. Gosto mesmo é do livro de papel, do manuseio, de folhear, anotar com lápis o que gosto na última página. Pelo menos, nossos olhos não ressecam como acontece depois de horas seguidas, à frente da tela acesa do computador.
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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife
