Violência doméstica: “Sempre ouvi dizer que numa mulher não se bate nem com uma flor”.

No século passado, o compositor Capiba já advertia. “Sempre ouvi dizer que numa mulher, não se bate nem com uma flor”. Pois se bate, ainda. E em pleno século 21. E não é com flor não. É com cabo de vassoura, facada, tiro, foice. É só o que a gente vê no noticiário policial. É machismo demais. Violência demais. Mulher sofrendo demais. Pernambuco fechou o ano de 2022 com um aumento de 5,7% nos casos de agressões/violência doméstica contra mulheres. Os dados são da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS/PE). No ano que passou, as delegacias da mulher registraram nada menos de 43.553 denúncias, o que equivale a quase 120 agressões por dia.

O pior é que depois que as violências começam a acontecer, tem início um caminho sem volta que, muitas vezes, termina em feminicídio, quando a mulher morre só pelo fato de ser uma mulher. Basta dizer ao cara que não quer mais viver com ele, muitas vezes, para assinar a própria sentença de morte.  Em 2022, foram registradas 72 mortes do tipo em Pernambuco, um pouco menos do que em 2021, quando 87 foram computadas.  Apesar da redução, o número é bem alto. Mestre em Direito Processual e coordenadora do curso de Direito do campus Recife da Faculdade Nova Roma, a professora Isabela Lessa, alerta para os sinais de alerta para que as mulheres não durmam no ponto e terminem sendo assassinadas. A crônica policial, não só de Pernambuco, mas em todo o Brasil está cheia de exemplos chocantes.

Nessa semana, uma mulher foi assassinada, a tiros, simplesmente porque reclamou ao parceiro que ele praticara violência durante o ato sexual. Não foi em Pernambuco, e sim no Sul do País. Em minha vida de repórter, já fiz cobertura de casos escabrosos de violência doméstica, mas os agressores ficavam soltos por crime de “menor potencial ofensivo”. Felizmente veio a Lei Maria da Penha para acabar com tanta impunidade. Mas mesmo assim, os casos de feminicídio e outros crimes contra a mulher permanecem alimentando a crônica policial e tumultuando a vida de milhões de famílias.

A advogada ressalta para alguns sinais que antecedem o feminicídio, chamados de “violentômetro” Por isso, é importante que a mulher fique atenta aos detalhes que caracterizam a violência psicológica (quando se humilha); violência moral (se inferioriza); patrimonial (não se permite que a mulher administre o próprio dinheiro ou se quebra os bens dela, alegando ciúmes); sexual e física (sendo essas últimas de alerta máximo). Ela destaca que, normalmente, os sinais estão presentes já no início do relacionamento: no ciúmes excessivo; na posse; na “coisificação” da mulher, fruto do machismo estrutural. “É um problema complexo, multifatorial e a criação de um tipo penal de feminicídio não reduz os índices. É preciso criar políticas públicas e momentos educacionais para que a mulher entenda que tem direito a um amor que não seja violento, que não seja abusivo”, alerta.

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Serviço
No Recife, há vários locais de acolhimento a mulheres vítimas de violência doméstica: Centro de Referência Clarice Lispector (Rua Dr Silva Ferreira, 122, Santo Amaro e Avenida Recife,3585); Centro de Referência Soledad Barret (Avenida Conselheiro Rosa e Silva, 720); Serviço de Apoio à Mulher Vilma Lessa (Estrada do Arraial, 2723); Centro de Apoio à Mulher Metropolitana (Rua Carapeba, Brasília Teimosa, S/N, junto à Igreja Católica). Há como usar,também, o Conecta Recife (e enviar mensagens sobre o problema ou fazer agendamento).  E telefones para se pedir ajuda, como o 08002810107, e plantão 24 horas no Zap 994886133

Texto: Letícia Lins/ #OxeRecife
Foto: Divulgação

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