Saudoso poeta Miró da Muribeca ganha biografia: “Estou quase pronto”

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João Flávio Cordeiro da Silva nasceu em 6 de agosto de 1960, no Recife. E morreu em 2022, vítima de um câncer sofrido e avassalador. Poucos sabem quem foi ele pelo seu nome de batismo. Porém o Recife, Pernambuco e o Brasil conhecem muito bem Miró da Muribeca, o poeta preto, pobre e periférico que soube traduzir (em versos)  como ninguém o cotidiano das ruas, não só do Recife, mas de outras cidades pelas quais andou. E cujo trabalho ganhou respeito de amigos, dos companheiros  boêmios, como também dos intelectuais e até da da academia.

Apesar da sensibilidade poética e de se divertir com os próprios versos – adorava contar a origem de cada um dos seus poemas, os “motes”,  situações e fatos que os inspiraram – Miró não teve uma vida fácil,  com infância marcada  pela pobreza e a vida de adulto tumultuada por conflitos existenciais e perdas (como a morte da mãe e decepções amorosas) que impunham internações e constantes recaídas ao alcoolismo.  “Estou quase pronto nu / para vestir os tristes de amor /dos que pensam em pular do oitavo andar / ou tomar remédio para dormir”, afirma em um dos seus poemas. E acrescenta:
“...eu acordado / quase pronto / para um novo dia / se bem que pronto / para um novo dia / quase ninguém está”. Pois “Estou quase pronto” é o nome da biografia de Miró, que a Cepe (Companhia Editora de Pernambuco) está lançando em dois eventos em São Paulo (sexta, 17 e sábado 18/10). E há, ainda um terceiro, no Recife, onde o lançamento será às 19h da quinta-feira (23), no Bar Mamulengo. Depois, em 8 de novembro, terá lançamento em Petrolina, PE.

O autor é o escritor Wellington de Melo, amigo do poeta. Wellington acompanhou a luta de Miró contra o câncer nos dois últimos anos de sua vida.  Romancista, ele estreia como biógrafo, embora já tenha trabalhado em biografias na qualidade de editor. Para ele, o fato de ter amigo de Miró criou facilidades, mas também dificuldades. “Ajudou porque eu pude ter acesso direto ao processo de enfrentamento da doença e a questões muito íntimas que Miró não tinha revelado até então. Ele teve essa abertura para falar coisas de maneira franca, coisas que muitas pessoas que conviveram com ele talvez não saibam e, comigo, ele pôde revelar”, destaca. A parte difícil era definir quais informações poderiam ser publicadas. “Eu precisava tomar decisões sobre o que revelar e o que não revelar, que eu acho que para um biógrafo são coisas mais objetivas, mas o fato subjetivo de ser amigo me colocava numa situação delicada, então isso em alguns momentos dificultou”, afirma.

Na sede da Academia: Miró, ao melo lado, e com Cida Pedrosa, uma das amigas da rede de apoio ao poeta

No livro, que tem 392 páginas, a trajetória do poeta é revelada em detalhes: a infância, a vida pessoal, as viagens, os encontros poéticos, os problemas com o alcoolismo e o reconhecimento nacional do homem que traduziu em poemas o cotidiano de pontes, fontes, avenidas, calçadas, bares, cidades. Na biografia, “Miró é apresentado com todos os seus defeitos, com todas as suas virtudes, e isso é uma coisa interessante porque humaniza a figura biografada”, segundo o autor. Além das fotos pouco conhecidas, entre o material inédito da biografia há cartas de namoradas do poeta na década de 1980.

“Essas cartas foram esclarecedoras de vários aspectos tanto da personalidade dele como para bater e confirmar algumas dúvidas com relação a datas”, relata Wellington. “Fora isso, há muitas coisas que aconteceram no período da internação dele que o grande público não sabe e terá acesso a partir da leitura da biografia, e também grandes presepadas de Miró que só são conhecidas, às vezes, por grupos diferentes, nas cidades onde ele viveu.” Miró tinha o dom não só da poesia, mas também de cativar as pessoas. “Miró sempre conseguiu ter redes de apoio que fizeram com que ele pudesse, de alguma forma, trabalhar com sua arte, viver a sua arte de maneira mais plena”, diz o escritor.

Na cidade por onde mais andou, não era difícil ver Miró em bares do Recife Antigo, vendendo seus poemas para garantir a sobrevivência e a bebida, esta que tanto marcou sua existência. Embora vivesse modestamente, tinha orgulho em dizer que vivia de sua poesia.  “Isso seria impossível sem várias pessoas que, ao longo da vida dele, o cercaram, isso não quer dizer que foram sempre as mesmas, havia ciclos porque a convivência com Miró, o jeito dele de ser, tanto alegra como fere também, então em alguns momentos as pessoas precisavam ser curadas dessa presença que às vezes era muito intensa”, diz o autor. Fazem parte da extensa rede as poetas Maria do Carmo Barreto Campello de Melo (1924-2008), Cida Pedrosa, o artista plástico Maurício Silva e o médico e escritor Wilson Freire. Maria do Carmo, aliás, foi uma das primeiras pessoas a descobrir a  veia poética, na repartição (Sudene) em que ambos trabalhavam, Miró como servente.

Wellington colheu dezenas de depoimentos de amigos de diversas fases da vida, pessoas do convívio e gente que entrava em contato para contribuir com relatos para a biografia. O livro traz explicações sobre a origem do apelido “Miró”,  as agressões sofridas por ser negro, a vida em Muribeca (bairro da periferia do município de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife), a descoberta da poesia, as primeiras publicações, as primeiras performances, os incentivos que recebeu para ser poeta, a relação com a mãe, o filho com quem ele não conviveu, os vacilos que cometeu por causa do alcoolismo.

“O livro é um testemunho da sua força estética e do seu alegrismo, elementos que o tornaram um dos nossos principais poetas nacionais. Em uma narrativa envolvente desde o primeiro capítulo, Wellington reconstrói as paradas, retornos e embarques da vida de Miró”,  destaca o editor da Cepe, Diogo Guedes. Wellington de Melo é escritor, editor e autor dos romances Emilio (Cepe Editora), Estrangeiro no Labirinto (Confraria do Vento) e Felicidade (Patuá) e do poema O Caçador de Mariposas (Mariposa Cartonera). É tradutor do poeta Miguel Hernández no Brasil e editou o livro de poemas Solo para Vialejo (Cida Pedrosa/Cepe Editora), vencedor do Livro do Ano do Prêmio Jabuti de 2020.

Miró, em 2018,  entre Cícero Belmar e Margarida Cantarelli,  imortais da Academia Pernambucana de Letras

Nos links abaixo, mais informações sobre o poeta Miró e sobre o autor de sua biografia.

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Serviço
O que: Lançamento de Estou Quase Pronto: uma biografia de Miró da Muribeca
Em São Paulo
17/10 (sexta-feira), às 19h30
Grupo Clariô de Teatro, Rua Santa Luzia, 96, Vila Santa Luzia, Taboão da Serra – SP, com participação do escritor Marcelino Freire
18/10 (sábado), às 16h
Livraria Simples, Rua Rocha, 259, Bela Vista, São Paulo – SP, com participação de Milton Aguiar

No Recife
23/10 (quinta-feira), às 19h
Bar do Teatro Mamulengo, Rua da Guia, 211, Bairro do Recife, Centro do Recife
Preço: R$ 70 (impresso)

Em Petrolina
8/11 (sábado), às  17h

Espaço Cultural Janela, 353, Rua Santana Filho, 353

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Rogério Alves, Pedro Escobar (Divulgação / Cepe) e Letícia Lins/ Acervo #OxeRecife

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