Esqueça as pedras portuguesas, o busto do Almirante Tamandaré e a fonte que existe no centro da Praça Artur Oscar, mais conhecida como Praça do Arsenal, que fica no Bairro do Recife, ali pertinho da Torre Malakoff. Ela será removida com a reforma que começa a ser implantada pela Prefeitura do Recife, naquele que está entre os quinze jardins históricos que Roberto Blurle Marx (1909-1994) deixou de “herança” na capital pernambucana. A Prefeitura diz que a ideia é aproximar o novo modelo da concepção original do projeto do paisagista, datado de 1934.
A reforma propõe “uma releitura contemporânea” do traçado por ele concebido. Vamos ver no que é que dá. Pelo material enviado aos jornais, a praça terá menos chão permeável do que o atual. O release garante que a vegetação será mantida. O que é bom, pois no Recife é muito comum a derrubada das plantas para implantação de parques e praças. Dá para acreditar? Dá. Porque é sempre é assim e, pelo que se observa, a Praça do Arsenal será uma exceção da regra. Assim esperamos. Vamos torcer para que nenhuma árvore nem palmeira imperial seja removida. A Prefeitura garante que espécies presentes no local como oitizeiros, castanholas e palmeiras imperiais serão mantidas. As palmeiras ficam “integradas ao novo paisagismo por meio de uma faixa de grama que destaca sua imponência e reforça a identidade visual e a memória afetiva da praça para os recifenses”.
De acordo com a gestão municipal, A requalificação vai respeitar “o patrimônio histórico e incorporando as transformações urbanas do entorno ao longo do tempo”. Segundo a Prefeitura, a proposta é “transformar o espaço em uma praça mais acessível, acolhedora e em sintonia com os princípios de Burle Marx, referência do paisagismo moderno no Brasil. A área já está isolada para o início dos serviços, com previsão de conclusão até 15 de outubro”. Coordenada pelo Recentro e pela Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), a intervenção faz parte das ações mitigadoras do empreendimento Moinho Recife. O projeto foi elaborado pela equipe de arquitetura da Emlurb, com consultoria do Laboratório da Paisagem da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que contribuiu com levantamentos históricos e registros iconográficos da praça. Informa a PCR:
“Entre os principais destaques do projeto está a retomada de um grande jardim central com espécies de restinga, adaptadas à salinidade e representativas da vegetação nativa brasileira. O novo canteiro ocupará o lugar da fonte instalada nos anos 1970, que descaracterizou o projeto original, e será contornado por uma mureta de alvenaria revestida em granilite. A mudança reforça a brasilidade presente na obra de Burle Marx, marcada pelo rompimento com modelos paisagísticos europeus e pela valorização da flora nacional”. A última versão da fonte, dessa vez luminosa, foi implantada em 2018.
A requalificação também prevê a instalação de bancos de concreto contemporâneos com bordas arredondadas junto às árvores mais antigas, reinterpretando os assentos circulares utilizados por Burle Marx para proteger a vegetação recém-plantada. Para tornar o espaço mais amplo, serão removidos gradis, escadarias, rampas e portões (realmente não acho interessante gradis em praças). Pena que as pedras portuguesas também serão removidas. Darão lugar a placas de concreto liso, tornando “o espaço mais acessível, acolhedor e integrado à paisagem urbana”. Será? Outros elementos contemporâneos também serão incorporados, como lixeiras com acabamento em madeira, bicicletário e novo sistema de iluminação pública, que tornam o ambiente mais seguro, funcional e convidativo. O busto do Almirante Tamandaré, hoje no centro da praça, será transferido para o Quartel da Marinha.
“A retomada do conceito original da praça buscou melhorar a qualidade do uso cotidiano e estimular a permanência, além de atuar como ferramenta de preservação da memória urbana e de educação patrimonial”, afirma Celso Sales, Superintendente de Paisagismo da Diretoria Executiva de Projetos e Obras da Emlurb. A Praça do Arsenal integra o conjunto de 15 jardins históricos do Recife projetados pelo paisagista Roberto Burle Marx (1909–1994), oficialmente reconhecidos pelo Decreto Municipal nº 29.537, de 23 de março de 2016. Dos quinze, seis são tombados pelo IPHAN.
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotografias/ Imagens :PCR / Divulgação

Que pena a retirada das pedras portuguesas,pois têm um charme especial. Uma fonte no centro, conforme projeto inicial, também daria um toque original.
Os pisos de concreto destoam do conjunto arquitetônico do entorno.
Vamos aguardar o resultado…
Interessante o texto Letícia! Como é um local que estudo há bastante tempo, resolvi fazer um texto sobre os desmantelos anterires nessa praça! Blz
As Atrocidades na Praça Arthur Oscar
A Praça Arthur Oscar, conhecida como Praça do Arsenal, no coração do Recife Antigo, é um local que congrega diversas camadas da história do Recife, muitas delas marcadas por decisões controversas e a supressão de memórias.
Originalmente, a praça era conhecida como Praça dos Voluntários da Pátria, nome em homenagem a participação do Brasil na Guerra do Paraguai. No entanto, essa denominação foi substituída por Praça Arthur Oscar, em homenagem ao General Artur Oscar de Andrade Guimarães. Essa mudança, por si só, já representa uma das primeiras atrocidades simbólicas, pois celebra uma figura diretamente ligada a um dos episódios mais sombrios e brutais da história do país: o Massacre de Canudos. A brutalidade da campanha de Canudos, que vitimou milhares de sertanejos, incluindo mulheres e crianças, é um capítulo vergonhoso na história brasileira, e a escolha de nomear uma praça em homenagem a um de seus principais algozes é um escárnio com a memória dos que tambaram no sertão baiano.
Mas antes mesmo da mudança de nome da praça, outro ato de desrespeito ocorreu nas proximidades da Rua do Bom Jesus: a demolição do Arco do Bom Jesus em 1850. Este arco, que era uma das portas de entrada da cidade do Recife, possuía grande valor histórico e arquitetônico, sendo um vestígio da ocupação holandesa e da evolução urbana da cidade. Sua destruição teve objetivo de abrir espaço para as construções do Arsenal da Marinha em frente a praça.
Como se não bastasse tanto desmantelo, vem a cereja do bolo. No centro da praça, entre 1904 e 1908, foi erguido um obelisco batizado de 7 de Setembro, em celebração à independência do Brasil, visto na foto acima de 1913. Em 1936, durante a implantação do projeto paisagístico de Roberto Burle Marx, o obelisco foi removido. Apesar da intervenção de Burle Marx ser digna de elogio, e suas obras no Recife o transformaram num dos maiores paisagistas do século XX, a remoção de um monumento, para dar lugar a um novo projeto, pode ser vista como mais um apagamento da história e da memória coletiva em favor de uma nova estética ou funcionalidade. Infelizmente este monumento teve um destino irônico e a ironia reside no fato de que um monumento que celebrava a libertação do país foi “libertado” de seu local original, perdendo sua função simbólica e seu contexto histórico.
Texto: Denaldo Coelho – 25/07/2025
Imagem: Fundação Joaquim Nabuco (sem autor)
Fonte: Internet
OSC PRESERVAR PERNAMBUCO: DEFENDER A HISTÓRIA E PRESERVAR A MEMÓRIA
Muito bom, Denaldo.