População de rua e restaurante popular

Se em tempos normais a fome já estava grande, imaginem depois da pandemia. Basta dar uma volta no centro do Recife ou em seus bairros, para se observar o quanto cresceu a população de rua. No asfalto – principalmente nos cruzamentos e onde tem semáforo – o que  a gente mais vê são pessoas exibindo cartazes que antes eram observados nas poeirentas estradas do Sertão, em tempos de seca. “Estou com fome”. Ou seja, a insegurança alimentar está maior. Então, os chamados restaurantes populares prestam um grande serviço a quem não tem dinheiro para conseguir um prato de comida.

Nesta segunda-feira (2/8), houve a reinauguração do Restaurante Popular Naíde Teodósio, que foi ampliado e passa a funcionar em novo endereço: a Rua Afonso Costa, 212 C, no mesmo bairro de Santo Amaro. Naíde (1915-2005), para os que não sabem, dedicou a sua vida à pesquisa na área de Nutrição. Cheguei uma vez a entrevistá-la sobre propriedades anticancerígenas de algumas frutas que ela estudava. Então, a homenagem é justíssima.  O restaurante popular integra o Programa Recife Acolhe, que é voltado para assistência a populações em situação de vulnerabilidade social. O restaurante vai ofertar 750 almoços diariamente, das 11h às 14h. O Recife tem dois restaurantes populares. O outro é o Josué de Castro. Ambos foram inaugurados ao final da gestão anterior.

O Prefeito João Campos (PSB) informou que só tem direito a almoço gratuito pessoas cadastradas, que têm acesso ao benefício com biometria na entrada. “Tudo para garantir que quem mais precisa na cidade vai ter logo o nosso acolhimento”.   O restaurante havia sido fechado durante a pandemia, e só o Josué de Castro estava funcionando.  Ele disse que há planos para expandir o sistema.  A entrada do equipamento é via catraca e reconhecimento facial. Há espaço para recepção e sala para cadastramento e atendimento dos usuários. O refeitório é mais amplo, podendo acomodar até 72 pessoas, conforme orientação da Vigilância Sanitária.

Restaurante popular Naíde Teodósio: comida gratuita para quem tem fome em vive em situação de rua.

Josevildo da Silva, 56 anos, foi uma das pessoas que foram ao Naíde Teodósio. ” Tem sobremesa, suco, feijão, arroz, carne”, elogia. Ele mora na rua, e atualmente tem usado o abrigo Irmã Dulce. Agradece a “caridade” das autoridades.  Rildaci Braga, 61 anos, esteve no local com o neto de 6 anos e aprovou o restaurante e a comida. “Desde que abriu essa casa abençoada, eu tenho mais é que agradecer a Deus. Deus sabe de tudo e a gente não sabe de nada. Está ótimo. Aqui é mais perto para mim”.

Para ter acesso aos restaurantes, o usuário precisa ser atendido pelos serviços da Assistência Social do Recife. O acompanhamento é comprovado na entrada, após a identificação. Caso a pessoa ainda não tenha cadastro junto aos serviços socio assistenciais, a partir daquele momento ela passa a ser acompanhada. O Recife Acolhe trabalha novos projetos nos eixos de moradia, segurança alimentar, empregabilidade, doações e ações institucionais. Além da reinauguração do Naíde Teodósio, a Prefeitura acaba de lançar edital para cadastrar estabelecimentos da rede de hotelaria para ofertar 200 vagas de acolhimento para pessoas em situação de rua.  Além do acolhimento, o município tenta garantir empregabilidade dos moradores de rua. Alguns já estão trabalhando na limpeza urbana do Recife.

Para a população de rua, um local para morar com telhado e quatro paredes não significa apenas um teto e segurança. Significa cidadania. Pois muitos sem teto já me relataram dificuldades para arranjar emprego, porque o morador de rua é marginalizado. Se não tem  endereço “é confundido com vagabundo”, alegam. Pelo fato de morar em abrigo oficial, segundo informam, também  são discriminados. Foi diante dessa realidade que a Pastoral do Povo de Rua decidiu implantar um programa que garante quitinetes para  aqueles que estão sem teto. De acordo com os coordenadores da Pastoral, os donos dos imóveis resistiram no início, mas depois se acostumaram.  Eles elogiam o programa, porque além de maior liberdade de horários , passam a ser vistos como cidadãos, a partir do momento que têm um endereço convencional.

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Texto:  Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Rodolfo Loepert/ Divulgação / PCR

 

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