Ponte Buarque de Macedo e os tristes caminhos das “Cismas do destino”

Ela pode nem ser a mais famosa do centro do Recife. Mas, com certeza, figura entre um dos mais conhecidos poemas de Augusto dos Anjos (1884-1914).  Em As Cismas do Destino, o poeta reflete, em versos, sobre a edificação e passa em revista a própria vida, que já vinha sendo consumida pela tuberculose. “Recife, Ponte Buarque de Maceo. / Eu, indo em direção à casa do Agra / Assombrado com minha sombra magra, / Pensava no destino, e tinha medo!”

O poema valeu a Augusto dos Anjos uma estátua na Praça da República, bem pertinho da Ponte, que – com seus 288 metros de comprimento – é a mais extensa do centro da cidade. E também uma das mais bonitas, com seu guarda-peito com seus coloridos arabescos de concreto. A Buarque de Macedo liga os bairros de Santo Antônio e do Recife Antigo. Inicialmente erguida em madeira, ela foi inaugurada no século 19 e reconstruída em 1922, mantendo até hoje as mesmas características do início do século passado.

Tombado, o LIceu de Artes e Ofícios está inacessível, com a calçada tomada por barracas de moradores de rua.

Provavelmente se o poeta fizesse os mesmos caminhos que costumava percorrer no passado, mudaria a natureza dos seus versos. Ou até os carregaria de tintas mais fortes. “Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes / A perfeição dos seres existentes, / Hás de mostrar a cárie dos teus dentes / Na anatomia horrenda dos detalhes”. E os detalhes, hoje, são feios mesmo. E tristes. Quem se dirige à Buarque de Macedo, infelizmente, defronta-se com mais uma cena miserável, entre as que a gente costuma ver no Recife e que se tornaram ainda mais frequentes nos últimos quatro anos, com o crescimento de pessoas sem casa, sem trabalho, sem comida.

Olhem só a foto superior. Para quem está no bairro de Santo Antônio e pretende se dirigir à Ponte Buarque de Macedo, indo pela Avenida Martins de Barros, é esse o quadro que se encontra. É verdade que a miséria é grande. Mas é verdade, também, que faltam políticas públicas para as populações de rua. Como também é verdade que os espaços públicos não podem ser ocupados dessa forma. Mas infelizmente é só o que se vê no já tão degradado centro do Recife.  É o que se observa, também, em praças como a histórica Maciel Pinheiro e a Osvaldo Cruz (na Boa Vista) , na Praça da Independência  (Santo Antônio) e nas calçadas de prédios históricos na Rua do Imperador, como o complexo religioso franciscano.  O #OxeRecife mostrou aqui recentemente como está a calçada do Liceu de Artes e Ofícios, bem pertinho da Praça da República. O prédio é tombado, mas os acessos estão bloqueados por barracas de lona da população sem teto. E na Avenida Martins de Barros, uma das vias de acesso à Ponte Buarque de Macedo a situação é a que vocês estão vendo. Triste, não é? Desse jeito, não tem turismo que resita!

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Genival Paparazzi / Foto do leitor

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