“Os Inumeráveis estados do Ser” em “live” neste sábado com Gonzaga Leal

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Terapeuta ocupacional – com passagem profissional em várias clínicas psiquiátricas do Recife, nas quais sempre usou a arte para ajudar os pacientes – Gonzaga Leal hoje dedica-se a uma outra atividade que escolheu como a principal para a maturidade: o palco. Atua como cantor com repertório de saudosos clássicos da MPB, mas também dedica-se ao teatro. Nem nesses tempos de pandemia, deu uma pausa na carreira artística. Após a live do último dia 31 de julho (#ZiriguidumEmCasa),  ele volta à Internet, via Google Meet, para apresentação do espetáculo  solo Antonin Artaud e os Inumeráveis Estados do Ser, que já apresentara há  exatos 25 anos. O texto, no entanto, remete  não só ao mundo atual mas também ao Brasil de hoje. A live será entre 16h e 17h30m, do sábado (15/8). Quem quiser assistir, eis o link:  https://meet.google.com/avc-pockn-skx.

“O texto é muitíssimo atual, sobretudo porque fala do nosso desassossego, da sociedade perversa, interroga o tratamento psiquiátrico e os médicos”, afirma Gonzaga Leal. A reapresentação resulta de convite do Grupo ATalhos. E a direção cênica e figurino obedecem à montagem anterior. Naquela época, sob responsabilidade do saudoso diretor Rubens Rocha. Filho (1939-2008).  Também se repetem  o  próprio Gonzaga Leal na dramaturgia, e A Paixão segundo São Mateus, de Bach (1685-1750), como trilha sonora. O monólogo aborda  o ser do homem e a loucura. “Como assegura Lacan, o ser do homem não somente não pode ser compreendido sem a loucura, mas não seria o ser do homem, se não trouxesse a loucura como limite de sua liberdade”, lembra Gonzaga Leal. Após apresentação do monólogo haverá debate. E assunto não vai faltar à discussão, embora o ator não vá participar da roda de conversa.

Nos anos 1990, durante o Governo Miguel Arraes, Gonzaga Leal foi convidado para prestar consultoria à equipe do Hospital Ulysses Pernambucano. Ali, fez imersão com a equipe e criou o Projeto Iluminuras, que tinha como uma das estratégias levar arte para os pacientes. Entre elas, o teatro. As encenações eram realizadas na própria capela da “Tamarineira”, como estabelecimento psiquiátrico é mais conhecido. E entre os autores escolhidos, estava justamente o francês. Artaud foi poeta, escritor, ator, roteirista, diretor de teatro francês. De inspiração anarquista, que virou referência para muitos diretores.

Antonin Artaud nasceu em 1896. Passou por várias clínicas psiquiátricas, em um período em que se impunha tratamentos brutais e nada humanos aos pacientes (os protocolos universais e equivocados de atendimento da época a pessoas com problemas mentais já renderam muitos filmes). Artaud parece ter sido vítima daqueles métodos. Foi  encontrado morto no dia 4 de março de 1948, na clinica Ivry, em Paris. E hoje,  tanto tempo depois, sua história e seus escritos ainda suscitam paixões e mitos. Para Gonzaga Leal, ele se encontra em todas as encruzilhadas do pensamento contemporâneo: teatro, cinema, música, dança, pintura, poesia, psicanálise. “Artaud excede as fronteiras e desenraiza todas as genealogias”, define. Em se tratando de Antonin Artaud,  tudo que se diz é muito forte, profundo, cheio de significados e interpretações. Sua “escrita de  vísceras” é “regada pelo sangue e pela vontade de potência numa vivência radical”, lembra o artista, com a experiência de grande convivência com o mundo dos loucos.  Nesses dias de ficarem casa, devido à pandemia,  a live é uma boa para quem está disposto a repensar o mundo em que vivemos hoje.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação

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