O drama de Mirtes, o descaso da patroa e o uso indevido do dinheiro público

Muito triste e revoltante o que aconteceu com o menino Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, que caiu do nono andar do Condomínio Pier Maurício de Nassau, uma das torres gêmeas localizadas no Bairro de São José. A mãe da criança, Mirtes Renata Santana de Souza fora passear com o cachorrinho da patroa, quando esta prometera cuidar do garoto enquanto a empregada cumpria parte de suas obrigações, como funcionária da família.

A tragédia ocorreu na última terça-feira. Durante dois dias, os veículos de comunicação não divulgaram o nome da patroa, preservado pela polícia. Diante do silêncio, suspeitei tratar-se de esposa ou companheira de algum político, pois sei que naquele condomínio de luxo moram vários deles. Não deu outra.  A patroa de Mirtes é Sari Gaspar Côrte Real, esposa de Sérgio Hacker, Prefeito de Tamandaré, município localizado no Litoral Sul de Pernambuco. Quem divulgou a sua identidade foi a mãe da vítima, em entrevistas a veículos de comunicação do Recife e nas redes sociais.

“Se fosse eu, meu rosto estaria estampado como já vi vários casos na televisão. Meu nome estaria estampado e meu rosto estaria em todas as mídias. Mas o dela não pode estar na mídia, não pode ser divulgado”, lamentou Mirtes, em desabafo feito para jornalistas, quando expôs a dor profunda e a extrema dedicação ao filho, sua razão de viver. “O caso mostra o racismo estrutural pois se fosse o contrário, o rosto da empregada estaria estampado em todos os jornais”, afirma Jean Pierre, do Movimento Negro Unificado de Pernambuco.

A julgar como verdadeiras as imagens do circuito interno do prédio em poder da polícia civil, Sari agiu com muita maldade, ao colocar uma criança indefesa no interior de um elevador, ao apertar um botão do último andar, e deixar que o menino circulasse – sozinho – por um ambiente cuja geografia ele desconhecia e totalmente arriscado até mesmo para os moradores do prédio que tenham a sua idade. Realmente uma atitude indefensável. A impressão que passa é que ela tentou livrar-se do desconforto de ouvir o choro de uma criança, que tudo que queria era estar perto da mãe. Triste, muito triste, desolador.

Uma atitude revoltante e movida a preconceito. Por que o menino da empregada foi jogado no interior de um elevador, sozinho, enquanto a filha da patroa ficou em casa, protegida? Com certeza, se não houvesse consciência do risco, as duas crianças teriam sido introduzidas juntas para o “passeio” forçado, para que a patroa ficasse com a paz que pretendia. Para a mãe e a avó de Miguel faltou só “um pouco de paciência” com a criança. Se faltou paciência, sobraram maldade, preconceito, descaso, negligência. Enfim, muito desamor e falta de respeito.

O drama de Miguel, no entanto, expôs mais um problema que complica a situação do Prefeito, que é do PSB. É que Mirtes consta na lista de empregados da Prefeitura,  desde 1 de fevereiro de 2017, o que indica que o salário da funcionária doméstica seria custeado pelos cofres públicos.  Hoje a Promotoria de Justiça de Tamandaré deu prazo de três dias à Prefeitura, para que  explique o que seria caracterizado como crime de responsabilidade e infração político administrativa. Já o Tribunal de Contas do Estado anunciou uma auditoria especial na Prefeitura de Tamandaré, que fica no Litoral Sul, a 104 quilômetros do Recife.

Nesse momento, há concentração em frente ao Palácio da Justiça, onde há cerca de cem pessoas que devem seguir, em passeata, em direção às Torres Gêmeas, onde farão um protesto contra a negligência de Sari. A manifestação obedecerá aos critérios de isolamento impostos pela pandemia, pois o percurso será feito em grupos de dez pessoas, com máscaras e usando álcool gel. A saída do TJPE está prevista para as 15h dessa sexta-feira. Daqui a pouco. E Mirtes não está sozinha. Todos estão com ela. Todos sentem por Miguel. #TodosPorMiguel #justiçapormiguel

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Facebook

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