O caminhar e o Jardim do Baobá

O inverno nem terminou ainda, mas a tarde era de  verão, no Jardim do Baobá, na última quarta-feira. Crianças brincavam, casais namoravam e o barquinho se movimentava no Rio  Capibaribe.  Um grupo de pessoas se reunia para discutir  O Bom Viver e o Direito à Cidade, dentro da programação da Semana do Caminhar, que acontece até o próximo dia 13 de agosto em  nove cidades brasileiras, incluindo a nossa, o Recife.

Com o tema Caminhar dá liga, o evento ocorre simultaneamente em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Manaus, Juazeiro do Norte, São Carlos e Porto Alegre. E a julgar pelo que dizem os caminhantes, andar dá liga mesmo. “A gente deve começar a caminhar, a formar grupos. Caminhar é contemplação, a paisagem é toda nossa, e as caminhadas promovem uma interação extraordinária”, afirma o engenheiro Agenor Tenório.

Conversas e coletas de sugestões para garantir direito de caminhar no Recife, em evento que mobiliza nove cidades.

Adepto da prática, ele criou dois grupos para andar pelo Recife, o MeninxS de Rua e o Andar a Pé. E está formando um terceiro.  “Já caminhei 70 quilômetros pelos Lençóis Maranhenses, 80 quilômetros pelo Peru e 820 fazendo o Caminho de São Tiago de Compostela”, contou.  Os principais problemas do Recife quanto ao direito de caminhar foram colocados em questão: violência, as calçadas, a cidade planejada para os automóveis e não para os pedestres. “No Recife, 70 por cento das pessoas se deslocam a pé, no entanto, a maior parte dos recursos vão para os 30 por cento que andam de carro”, reclama Leonardo Cisneiros, dos grupos Direitos Urbanos e A Cidade Somos Nós.

Para Leonardo, o hábito de andar pode ser “desafiador”, principalmente com a cultura implantada no Recife, onde as pessoas “se isolam em condomínios com muros altos,  frequentam o comércio fechado dos shopping-centers” e quase só andam de carro. Para ele, isso é o reflexo de uma “cidade desigual”.  Afirma ser necessário que na cidade se construa “obras coletivas que possam ser desfrutadas coletivamente”. Citou o caso do Movimento Ocupe Estelita, mostrando que o projeto imobiliário inicial para aquela região “beneficiaria apenas um pequeno grupo de pessoas, em prejuízo da maioria da população”.

A Semana do Caminhar foi idealizada pela SampaPé, organização sem fins lucrativos fundada em 2012, com o objetivo de estimular a experiência de caminhar na cidade. No Recife, a iniciativa conta com a parceria do Incit – Pesquisa e Inovação para as Cidades, que é uma rede de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco. Segundo o coordenador de Ativação do Inciti/ Ufpe, Caio Scheidegger, a proposta “é construir novas diretrizes para a mobilidade ativa, abrir um canal de diálogo e fomentar cooperação das redes de articulação para a mobilidade”. No Recife, são vários os eventos da Semana do Caminhar.  No Recife, vários grupos exercitam o hábito de andar para conhecer melhor a cidade. Eu, por exemplo, aderi ao Caminhadas Domingueiras. No Jardim do Baobá, cada pessoa deixou um bilhete dizendo como seria a cidade dos seus sonhos.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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