O adeus de Zé de Vina, Carlos Reis e Geraldo Menucci. Cada um, uma história

A cultura de Pernambuco ficou bem mais pobre, na semana que passou. Primeiro foi o Mestre Zé de Vina, referência em teatro popular de bonecos, e que faleceu aos 81, deixando como legado uma história de 70 anos dedicados ao folguedo do mamulengo. Já doente e sem condições mais de participar da “brincadeira” para a qual despertou ainda na infância, ele é alvo de homenagem na cidade onde viveu, Glória do Goitá, considerada a capital estadual do mamulengo.

É através do Projeto Os 80 anos de Zé de Vina – O derradeiro ato, que vem sendo tocado pelo Museu do Mamulengo e pela Associação Cultural de Mamulengueiros de Glória do Goitá, que fica a 63 quilômetros do Recife. O projeto deveria ter sido iniciado em 2020, mas veio a pandemia e atrapalhou tudo. Então, teve que ser readaptado, com ações virtuais e também presenciais (porém seguindo todos os protocolo sanitários).  As homenagens vão até março e incluem não só oficinas como também apresentações de peças. E você pode conferir a programação no primeiro dos links abaixo.

Depois, foi-se Carlos Reis, com quem tanto convivi no passado, quando trabalhei juntamente com Ricardo Leitão na assessoria  de imprensa do espetáculo A Paixão de Cristo, da Nova Jerusalém. Lembro-me dele como Jesus Cristo e, depois, como diretor do teatro. Era uma pessoa muito simples, doce, afável.  Pelo que sei, era muito bom, também, em área técnica, não lembro se climatologia ou agronomia.

Ou os dois.  Uma vez houve uma conferência internacional sobre clima, em Fortaleza. Lembro que os debates eram muito técnicos, em inglês, e que eram difíceis de entender. Até porque os tradutores do encontro não manjavam nada, mas nada mesmo do assunto. E, com certeza, não entendiam o que estavam traduzindo. Porque as traduções eram ainda piores do que as explanações. Quem nos salvou foi Carlos Reis, que entendia o que estava sendo discutido e virou o nosso tradutor predileto. E “oficial”. A partir dele, nós, jornalistas, conseguimos entender melhor os assuntos em discussão. Reis morreu de câncer. Ele traduzia não só o idioma estrangeiro, como tornava mais claro os assuntos técnicos.

Por fim, foi-se o Maestro Geraldo Menucci, uma das pessoas mais doces que já conheci em minha vida. Carioca, violinista e primeiro regente da Banda Sinfônica do Recife, ele atuou no Movimento de Cultura Popular, o MCP, nos anos 1960, que foi desmantelado pela ditadura.Tenho lembrança de Menucci, conversando comigo e Tarcísio Pereira – então meu companheiro – na sala da minha casa, enquanto saboreávamos um suco de fruta. Com minha curiosidade natural de repórter, indaguei porque ele foi perseguido pela ditadura, ao ponto de ter de seu ausentar do país só voltando com a anistia, nos anos 1980.

Naquele tempo, o simples fato de participar do MCP já era meio caminho andado para ser “fichado” no famigerado DOPS. Mas a perseguição a ele teve motivo mais prosaico. Recordo dele contando o equívoco da perseguição política contra ele. A chamada gota d´água que faltava. Vejam o que ele contou:

“Decidi fazer um concerto fluvial com os barcos deslizando pelo o Rio Capibaribe. Cada barco tinha um balão vermelho, o que deixou o ato mais romântico e mais bonito. O problema é que a data que escolhi era a mesma da Revolução Cubana e, então, fui acusado de fazer apologia ao regime que havia sido implantado na ilha por Che Guevara e Fidel Castro. O pior é que eu nem estava lembrado da coincidência. 

Realmente não dá para entender, como os homens das armas, detentores do poder – então uma ditadura militar – temiam tanto os que não as possuíam. No caso de Menucci, ele usava a música como “arma” contra a ignorância e o tédio em que vivíamos, imposto pela censura, pelos presos políticos, pela tortura, pelo cerceamento às nossas liberdades e aos direitos humanos. Ontem, quando vi na TV que o maestro havia morrido de Covid-19, me deu uma tristeza profunda. Então contei aquela história ao meu filho caçula, Thiago. “Você já me contou essa história. Achei tão absurda, que nunca esqueci”. Não dá mesmo para esquecer.

Leia também
Zé de Vina, mestre mamulengueiro ganha homenagem em Glória do Goitá
Mamulengueiros tradicionais se rendem ao mundo virtual
Bonecos fazem a festa em Casa Forte
 Dia do Artesão: Viva Miro dos Bonecos
Resgate do mamulengo pernambucano
Fotógrafos documentam mamulengos
Brejo da Madre de Deus é tombado
A nova Paixão do Recife
Drama da Paixão: Aplicativo para turistas
A arte de Victor Moreira
Boi da Macuca: no céu, o frevo e o forró
“Para tocar o coração das pessoas”
A festa mágica dos bonecos
Tacaruna: Exposição de “bonecos gigantes de Olinda” que, no entanto, são do Recife
Bonecos gigantes: Não confunda alhos com bugalhos
Bonecos gigantes: Crise de identidade
A festa do trio de bonecos gigantes
Bora Pernambucar chega ao fim com encontro de bonecos gigantes
Zé Pereira festeja cem anos no Recife
A Zé Pereira, com festa e com afeto
Mão Molenga no Ricardo Brennand
Sesc prorroga expô do Mão Molenga
Mão Molenga é um sucesso
O Mané Gostoso de Saúba
Galpão das Artes e brinquedo popular
Galpão das Artes faz a festa em Limoeiro

Olinda entra na festa dos bonecos

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto:  Divulgação / Museu do Mamulengo / Glória do Goitá e reprodução/ Internet

Continue lendo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.