Nada vale a pena quando a alma é pequena

Não ia nem falar nisso, pois o assunto já está em todos os jornais e redes sociais. E, portanto, muito “batido”, como se diz entre os jornalistas. Mas não dá para calar.  Sinceramente, reduzir a maior festa popular do Brasil a um ato isolado de obscenidade e escatologia não é coisa para nenhum brasileiro fazer.  E muito menos um presidente da República. O carnaval está na alma de todos os brasileiros. Até mesmo capitais que não cultivavam a festa com tanta intensidade – São Paulo, Belo Horizonte, Brasília – apresentam uma explosão de blocos que eram restritos em  quantidades maiores a cidades como o Recife, Salvador e, mais recentemente, o Rio de Janeiro.

Será que o Presidente não teve sensibilidade para ver as coisas bonitas das escolas de samba? A beleza estética, a crítica social, a harmonia e o show das rainhas de baterias?  E a beleza do frevo, do maracatu, dos blocos líricos, dos caboclinhos, das tribos de índios, dos bonecos gigantes? E a alegria nas ruas de Salvador? Será que ele não sabe de fenômenos como o show de criatividade das fantasias no  carnaval  democrático das ruas de Olinda? Não importa se a cena por ele postada foi praticada por dois homens, ou por duas mulheres, ou por um homem e uma mulher. O que importa é que uma pessoa que viu o carnaval, uma festa tão bonita, só por esse ângulo, sinceramente, deve ter uma alma muito pequena. Bem ao contrário do que apregoou o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), que diz que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Talvez, portanto, possamos inverter: “nada vale a pena quando a alma é pequena”. Nem mesmo uma festa tão linda e democrática quanto o carnaval.

Imaginem se o Governador de Pernambuco ou o Prefeito do Recife reduzem a grandeza de nossa festa maior à ação de algumas almas sebosas, que andaram furando com seringas os foliões? No caso do Presidente, o que ele fez foi isso: reduzir a explosão brasileira de alegria aos excessos isolados de uma dupla de foliões.  Mas… Será que o carnaval brasileiro – a maior festa do mundo –  se resume ao que o Presidente mostrou? Sinceramente, terminei por lembrar de uma frase de outro poeta,  Rainer Maria Rilke (1875-1926), que diz assim: “Se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse. Acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas”.

O que dizer, então, de uma pessoa que vê uma festa tão linda por um  ângulo menor ?  Cenas de carnaval que ele postou em sua rede social, sinceramente,  eram restritas às revistas pornôs, do pós-carnaval que, antes do advento da Internet, publicavam as imagens mais picantes da festa. Das duas, uma: alma pequena mesmo, ou revolta pelo grito de guerra dos foliões, que eclodiu  em muitos lugares.  E em massa: “um, dois, três, quatro, Bolsonaro é o c……. No Recife, tinha até folião com megafone para usar a frase. Também choveram paródias com clássicos do cancioneiro carnavalesco,  como Jardineira. E, pelo menos em ruas do Recife e Olinda, houve mais vaias  que aplausos ao boneco do Presidente, colocado no meio da folia pela Embaixada dos Bonecos Gigantes, que fica no Recife.  Nesse caso, estou mais é com os bonecos que incorporam a magia do carnaval: Zé Pereira, Vitalina, o Homem da Meia Noite, o Menino da Tarde, a Mulher do Dia que são a “cara” da grande festa que não pode se limitar a nenhuma visão estreita nem menor. E viva o carnavallllllllllllllllllllllll!

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação/ PCR

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One comment

  1. Ótima matéria Leticia. De grande valia. Boa colocação. Nossa festa mundialmente conhecida. Tendo por um gestor nacional. Postando em sua rede oficial. Um vídeo sexual isolado. Trazendo para seu governos ainda mais problemas. Viva o Carnaval!

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