Maracatu, escultura em bronze de Abelardo Da Hora, também é pilhado. Perdeu estandarte e pálio

Se a gente for enumerar, é só o que não vai faltar. No Recife, sem que as autoridades tomem uma atitude mais enérgica, estão pilhando monumentos históricos, estátuas, placas indicativas e obras de arte. Desse descaso, o pior exemplo foi a pilhagem imposta ao Parque de Esculturas Francisco Brennand, em frente ao Marco Zero, de onde levaram 65 de 79 peças, algumas gigantescas. Como naquela ocasião,  o #OxeRecife mais uma vez cumpre sua missão de mostrar essas perdas, que estão se tornando cada vez mais frequentes. O pior é que, ao que parece, os órgãos públicos estão fazendo corpo mole diante da subtração do patrimônio da cidade. Pois o problema a cada dia aumenta mais.

No último domingo, durante um percurso pelo Bairro de São José com o Grupo Caminhadas Domingueiras, testemunhamos vários furtos. Além daqueles aqui já referenciados – sobre Frei Caneca e a Praça do Pirulito – enfrentamos uma outra perda, naquele circuito nas proximidades do Forte as Cinco Pontas. É que na praça que fica ao seu lado, há uma peça do inesquecível escultor Abelardo da Hora (1924-2014), em homenagem ao Maracatu Elefante. Dela, foram levadas o pálio e o estandarte. A obra de arte foi inaugurada em 2008, ao custo de R$ 420 mil, à época o maior conjunto de peças em bronze em uma só escultura da cidade.

Pelas fotos que circulam nas redes sociais, dá para perceber como era antes a escultura de Abelardo da Hora)

A escultura fica de frente para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, principal monumento do  Pátio do Terço, onde tradicionalmente ocorre no carnaval a Noite dos Tambores Silenciosos, em homenagem aos maracatus de baque virado. O também maracatu nação  surgiu entre os escravizados que vinham da África, que tinham nele uma manifestação que representava um sonho de liberdade e uma forma de manter a identidade ancestral.  No caso da escultura em questão, Abelardo da Hora presta homenagem ao Maracatu Elefante, que era liderado por Dona Santa (1877-1962), figura emblemática dessa herança afro e que hoje tem espaço a ela dedicado até em acervos públicos, como o exposto no Museu do Homem do Nordeste (da Fundação Joaquim Nabuco, Fundaj).

Ela era tida como matriarca dos  terreiros e maracatus de Pernambuco.  Foi” rainha” do Maracatu Leão Coroado, do qual afastou-se ao casar, quando fundou o Elefante, cujo” rei” era o seu marido.  Posteriormente viria a ser  “coroada”, tornando-se a mais conhecida “rainha” de maracatu do Nordeste. Hoje é objeto de estudo de sociólogos, antropólogos, pesquisadores do carnaval e da herança afro. O maracatu de Abelardo da Hora fica sobre uma base de concreto, revestida de granito. Os personagens ali retratados são as figuras mais icônicas do maracatu: Rei, Rainha, dama de companhia, dama do paço, dama da boneca, porta-estandarte, porta lanterna, carregador de elefante e ogan (batuqueiro com sua alfaia). Há, ainda, o elefante,  lanterna, o guarda-sol (pálio), o estandarte. As duas últimas peças sumiram.

Segundo a própria prefeitura, foram pilhados, também: o busto de Frei Caneca (bairro de São José) e o Mascate (Avenida Dantas Barreto, ambos já noticiados no #OxeRecife). E ainda:  o brasão do Monumento a Sacadura Cabral (praça 17, Santo Antônio);  o brasão da Ponte Maurício de Nassau, que liga os bairros do Recife a Santo Antônio (aqui já noticiado, também, com exclusividade); algumas peças da escultura Maracatu (nas imediações do Forte das Cinco Pontas), além de letras que compõem a obra central cravada no solo do Marco Zero, no coração do Bairro do Recife. À exceção das letras do Marco Zero, feitas em latão, as demais peças e obras são feitas em bronze. Isso, claro, sem falar no Parque de Esculturas do Marco Zero, que foi quase todo furtado, sem que as autoridades se mexessem para impedir. “Para todas estas ações, a Emlurb já abriu Boletins de Ocorrência”, segundo a PCR. 

Em suas redes sociais, nessa quarta-feira, o Prefeito João Campos (PSB) prometeu recuperar o que foi roubado.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins e Internet

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