Em dois passeios recentes pelo Recife – um com o Grupo Caminhadas Domingueiras e outro com o Caminhadas Culturais – fiquei impressionada com o abandono de imóveis que merecem maior atenção do poder público e produtores culturais. Isso porque, se bem conservados, poderiam funcionar como atrações turísticas, incluindo-se aí o sobrado onde residiu a escritora Clarice Lispector, cujo processo de tombamento se arrasta há dois anos na burocracia estadual e encontra-se em análise no Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco.
Se demorar muito, a situação – que é crítica – tende a piorar, pois é visível a degradação do prédio, que fica no bairro da Boa Vista. Infelizmente é muito preocupante a forma como os bens culturais localizados no Recife são tratados. Estive no ano passado em Salvador e saí com impressão nota dez dos locais por onde passaram ou viveram personagens ilustres: Mãe Menininha do Gantois, Jorge Amado, assim como Pierre Verger e Vinícius de Morais (os dois últimos nem baianos eram). Os imóveis onde viveram estão todos conservados, transformados em museus, fundações ou mesmo valorizados pela iniciativa privada, como é o caso da residência de praia de Vinícius, em Itapoã, que foi incorporada por um hotel, preservados todos os ambientes, móveis e pertences do poeta.

Mas aqui no Recife só faltam cair prédios históricos como o Chalé do Prata (no interior do Parque Estadual de Dois Irmãos), o sobrado onde nasceu o abolicionista Joaquim Nabuco (na Rua da Imperatriz, há pouco referenciado aqui no #OxeRecife) e aquele onde morou a escritora ucraniana Clarice Lispector, que viveu no sobrado com a família entre 1925 e 1937. Da Praça Maciel Pinheiro, percebe-se que o telhado ruiu do casarão, pois se vê retalhos do céu, observando-se o prédio a partir da rua.
As portas dianteiras estão vedadas com tijolos e concreto. E o lixo se acumula ao lado do prédio. O imóvel pertence à Santa Casa de Misericórdia, e seu processo de tombamento teve início em 2017. A tramitação não está parada, mas é lenta e o processo encontra-se atualmente para análise no Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco. O prédio fica na esquina da Rua do Aragão – de frente para a também degradada Praça Maciel Pinheiro – com a Travessa do Veras, onde o lixo faz parte da paisagem. A área já é tida como de preservação física garantida, por força de lei municipal. Imaginem só se não fosse, porque além do sobrado famoso – onde morou uma das escritoras mais cultuadas no Brasil – todos os outros sofrem obras que descaracterizam a arquitetura original e violentam a estética.
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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife
