Juntar o novo com o antigo não é inédito, mas a polêmica é inevitável: o caso do “Zeppelin”

 Juntar o novo com o antigo não é inédito, mas a polêmica é inevitável: o caso do “Zeppelin”

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Olhem bem para a fotografia acima. É mera coincidência qualquer semelhança com o polêmico restaurante em forma de Zeppelin,  que deve ser construído no alto de dois edifícios conjugados, que ficam em área de preservação histórica, no Bairro do Recife. Essa junção   observada do passado com o futuro na paisagem, vem a ser a sede da Autoridade Portuária da Antuérpia, na Bélgica, onde uma velha estação de bombeiros desativada passou por restauração adquirindo sua fisionomia original.  Porém a reforma veio acompanhada da edificação  arrojada e futurista, assinada pela arquiteta Zaha Hadid (1950-2016), a primeira mulher a ganhar um Prêmio Pritzker, o “Oscar” da arquitetura.

O escritório liderado pela iraquiana ganhou  concurso (com apenas cinco inscritos) que pedia uma solução para uma nova sede, que acomodasse os 500 funcionários daquele que é um dos mais importantes portos da Europa. A arquiteta  preservou o imóvel antigo, e imaginou a escultura gigante com 46 metros de altura e em forma de barco, do qual pode-se ter uma visão de 360 graus do porto (que tem doze quilômetros de extensão).  O prédio é formado de 2 mil triângulos irregulares de vidro, e hoje sua imagem imponente circula pelo mundo,  apesar do contraste  com a antiga edificação. A criação da arquiteta e designer (que era radicada em Londres) mostra também a simbiose do velho com o novo, do passado com o futuro. O novo prédio (abaixo) praticamente engoliu a velha estação de bombeiros, despertou polêmica no início e virou depois motivo de orgulho. A criação da arquiteta e designer deve ter contribuído para ratificar a sua colocação entre as mais importantes profissionais dos séculos 20 e 21.

Porto belga ganhou barco de vidro futurista, criando contraste e também simbiose entre o futuro e o passado

No caso do Recife, o restaurante em forma de Zeppelin proposto para a parte superior de dois prédios antigos  é bem mais modesto, com uma intervenção menor. Os imóveis em questão  ficam na Avenida Rio Branco, 23 e Avenida Marquês de Olinda, 58. A eventual intervenção, que contrasta com as edificações antigas do bairro, despertou muita polêmica, porque “não dialoga” com a paisagem secular. Realmente, a cápsula – como o barco de vidro de Zaha Hadid – vai representar um contraste e provocar impacto na paisagem do Marco Zero e entorno. Liberado pela Prefeitura do Recife, o projeto chegou a ser reprovado  pelo corpo técnico do IPHAN. Mas o Superintendente do órgão em Pernambuco, Jacques Ribemboim, contrariou o parecer dos arquitetos que analisaram a intervenção sugerida pela EBrasil, e que tem como proponente para o complexo cultural, o Centro de Integração Social e Cultural José Cantarelli, que vem a ser o braço social do grupo econômico. Ribemboim decidiu aprovar o projeto.

E aí, começou o buruçu, em torno do Zeppelin.  Ele alega, no entanto, que a estrutura é reversível, e permitiu a exploração da réplica do histórico dirigível, por um prazo de cinco anos. Ao #OxeRecife, declarou que sua decisão foi “técnica” , e tomada “usando a experiência pessoal e o profissionalismo, como forma de contribuir com a cidade”.  Lembra  que o  projeto não vai só instalar o polêmico Zeppelin, mas restaurar os dois edifícios, transformando-os em equipamentos culturais, que incluem  até museu. Ambos estão deteriorados.  “Se você ama o Recife, não pode deixar perder um projeto dessa envergadura, que confere à cidade o seu merecido destaque no cenário artístico e cultural não só de Pernambuco, mas do Brasil e do mundo”. Ele informou que chegou a sugerir aos empresários responsáveis pelo projeto que o terceiro pavimento dos prédios fosse aproveitado para o restaurante (ver projeto arquitetônico abaixo). Porém eles insistem na reprodução do dirigível por ser “diferente” dos outros estabelecimentos do gênero na cidade.

Restaurante em formato de Zeppelin é acusado de desvirtuar a paisagem do Marco Zero e entorno

“Mas o último andar é parte do museu do complexo, onde serão abrigadas as esculturas de nossos artistas”, defense-se Jacques. Disse, também, que a empresa condicionou a realização do projeto cultural à instalação do restaurante, inspirado na silhueta do icônico dirigível. “Não há nada parecido em Pernambuco. O projeto completo não é acanhado, é ambicioso, e não dá para perder essa oportunidade, que vai compor o arranjo produtivo local”, diz o representante do IPHAN.

Informa, ainda, que o acervo de arte (pernambucana) que comporá o complexo é imenso, e vai de Tereza Costa Rego a João Câmara, de Lula Cardoso Ayres a Cícero Dias. Afirma que o grupo busca sustentabilidade do REC Cultural (esse o nome do projeto), que terá museu, auditório, biblioteca (de arte), laboratório, sala de aula, café, lanchonete, restaurante, lojinha do museu.  Já liberado pela Prefeitura e pelo IPHAN, resta-nos esperar para ver se o polêmico Zeppelin  vai ou não dar certo, embora não fiquem dúvidas que, quanto ao resto – o complexo cultural  como um todo – o Recife só tem a ganhar.  A vereadora Cida Pedrosa (PC do B) está convocando a população para uma escuta à sociedade, sobre o polêmico  zeppelin do projeto REC Recife. O encontro será às 9h30 da sexta-feira (15/3), no auditório do Museu da Cidade, que funciona no Forte das Cinco Pontas, no Bairro de São José.

Abaixo, você pode ler mais informações sobre os 487 anos do Recife e sobre a cidade em geral.

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Texto:  Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Reproduções

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