Tem gente por aí dizendo que nunca existiu uma ditadura no Brasil. Tem gente que parece não saber diferenciar um regime de exceção e o Estado de Direito. Tem gente, também, que orienta seus seguidores para avacalhar as instituições democráticas nas redes sociais. E que acha que a justiça – incluindo o Supremo Tribunal Federal – não deve ser respeitada. Tem gente dizendo que a tortura não existiu durante o regime militar de triste memória, que foi implantado em 1964. E tem gente que até homenageou um torturador, o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, como se ele fosse um herói da “Pátria Amada Brasil”. Mas a memória dos fatos está aí. E não nos deixa mentir. Hoje, 27 de maio, faz exatamente 51 anos que o Padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto foi sequestrado, torturado e barbaramente assassinado no Recife. Durante 45 anos, o seu assassinato foi tratado como um crime comum pela polícia pernambucana. Mas a verdade foi, enfim, resgatada. A história é como a justiça. Tarda, mas não falha.

O “crime” do Padre era considerado muito grave pelos poderosos que comandavam as masmorras da ditadura, em 1969. Ele era auxiliar do então Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara (1909-1999), uma das lideranças religiosas mais visadas pelo regime militar e cuja simples citação do seu nome era censurada nos jornais. Um dos idealizadores da Teologia da Libertação, das comunidades eclesiais de base e eterno lutador em defesa dos direitos humanos, o Dom da Paz incomodava os defensores da ditadura. Padre Henrique era jovem, poliglota e havia sido ordenado três anos antes ser trucidado. Na verdade, o alvo era Dom Hélder. Eliminar o sacerdote que era seu auxiliar foi uma forma de atingi-lo.
O assassinato do padre foi uma forma das forças do obscurantismo enviarem um recadinho para que o Dom moderasse o tom do seu discurso, sempre em defesa da liberdade, naqueles tempos sombrios, em que ela nos parecia uma realidade tão distante. Mas, como é comum na História, a versão oficial da barbárie havia de ser desmascarada um dia. Em 2014, a Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara conseguiu provar que o crime teve motivação política, com o envolvimento de agentes do Estado e civis integrantes da extrema direita pernambucana. As informações constam em relatório elaborado e divulgado pela equipe que participou do trabalho.
Os documentos reunidos pela Comissão da Verdade, que derrubam a tese que o caso teria sido um crime comum, como atestou a polícia à época, foram digitalizados pela Companhia Editora de Pernambuco. E estão disponíveis para leitura no Acervo Cepe (www.acervocepe.com.br), gratuitamente. No portal há duas seções exclusivas sobre a morte do padre Henrique. Uma delas traz o relatório oficial do assassinato, produzido pela Comissão da Verdade, com 117 imagens, que também contém relatório da Comissão Judiciária de Inquérito criada pelo governo do Estado para apurar o crime, transcrição de escutas telefônicas e documentos confidenciais do Serviço Nacional de Informações (SNI), um órgão temido e poderoso à época. A segunda seção preserva o prontuário do padre Henrique, composto de recortes de jornais, correspondências, panfletos, relatórios, declarações, entre outros. “Temos 12 tipos de documentos e aproximadamente 300 imagens no prontuário”, informa o superintendente de Digitalização, Gestão e Guarda de Documentos da Cepe, Igor Burgos. Também estão disponíveis nessas seções fotografias do religioso e registros da missa de corpo presente e do cortejo que acompanhou o caixão da Igreja do Espinheiro (Zona Norte) ao Cemitério da Várzea (Zona Oeste), com a participação de padres e estudantes.
“Um ano depois do crime, em junho de 1970, o SNI concluiu o que de fato tinha acontecido, que havia um delegado de polícia, dois investigadores e um carro da Secretaria de Segurança Pública envolvidos na morte do padre”, destaca o presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife”, Antônio Carlos Maranhão de Aguiar. O relatório com essa informação, diz ele, foi enviado ao Ministério da Justiça, com um alerta para o escândalo que seria provocado no Brasil e no mundo caso a verdade fosse divulgada. “Difamaram padre Henrique, difamaram dom Helder e botaram uma pedra em cima do assunto. Tudo isso foi descoberto pela Comissão da Verdade. Tudo isso está no relatório à disposição do público. É uma verdade documental, não é opinião”, sublinha Aguiar. E acrescenta:
Depois de 45 anos, descobriu-se que os agentes que se apresentavam à sociedade como defensores da democracia ocidental e cristã, defensores da igreja tradicional e contra a infiltração comunista na igreja eram canalhas e bandidos. Daí a importância de manter acesa essa história, para mostrar aos jovens o que se faz por baixo de um tapete bonito. Não se sepulta uma história como essa, ela serve para prevenir e não deixar que um messias retorne dizendo-se salvador da Pátria, com ideias geralmente genocidas, geralmente assassinas, geralmente perversas.
Antônio Carlos Maranhão acha que a escolha do sacerdote, que também atuava como professor em duas escolas particulares (Vera Cruz para meninas e Marista para meninos) e no Colégio Municipal do Recife não foi aleatória. “Padre Henrique não era um padre qualquer. Logo após ser ordenado por dom Helder Camara, ele assumiu a Pastoral da Juventude da Arquidiocese, tinha estudado nos Estados Unidos, era poliglota com experiência internacional e, como professor, tinha acesso privilegiado a jovens de classe média e alta do Recife”, observa. “Em 1968, quando foi baixado o mais sanguinário dos atos institucionais, o AI-5, padre Henrique era considerado um subversivo porque fazia com os jovens um trabalho de esclarecimento e evangelização seguindo aquilo que dom Helder pregava: um mundo onde a paz fosse fruto da justiça. Pode ser até que alguns pais mais conservadores tenham se sentido incomodados com ação dele. O fato é que ele passou a ser perseguido com a pecha de comunista e foi sequestrado quando saía de uma das reuniões com pais e alunos. São essas coisas que estão começando a voltar, hoje, como um pesadelo”, alerta. Criada em 2012, a Comissão Estadual da Verdade ficou em atividade até meados de 2019. A investigação do Caso Padre Henrique, um dos primeiros com relatoria concluída, demorou um ano e meio. #TorturaNuncaMais.
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Fotos: Acervo Cepe
