Guarda Municipal interrompe ação de grafiteiros. Cadê a “maior galeria de arte urbana” do mundo?

Através do Programa Colorindo o Recife, as autoridades do município pretendem transformar a cidade na “maior galeria de arte urbana a céu  aberto do mundo”.  Atenção: não confundir pichação   (vandalismo) com grafitagem (arte de rua). O problema é que a gente se defronta mais com o primeiro caso (que é um ato criminoso) do que com o segundo. Mas de acordo com a Secretaria Executiva de Inovação Urbana, o Recife vai ficar mais alegre e colorido. Portanto, soou estranho o que aconteceu nesta semana, quando artistas que faziam intervenção no recém inaugurado skatepark da Rua da Aurora foram impedidos de trabalhar por uma guarnição da Guarda Municipal. Logo cedo, as imagens da abordagem  já estavam circulando nas redes sociais .

E chegaram  também ao #OxeRecife, claro. Até porque esse Blog vive de olho nas coisas da cidade. Um das primeiras pessoas que reclamaram da ação da Guarda Municipal foi o animador cultural Roger de Renor, aquele do Projeto Som da Rural. Ele acusou  a GM de atrapalhar o trabalho dos grafiteiros, que provavelmente poupariam o local de pichações futuras, o que é uma verdade. Os vândalos que picham muros, paredes e o patrimônio público costumam evitar colocar seus garranchos sebosos sobre as obras de arte urbana. A própria Prefeitura apela à estratégia de usar artistas para grafitar áreas vulneráveis às ações dos marginais, como túneis e parques públicos, justamente para inibir a ação dos vândalos.  Ao #OxeRecife, a Prefeitura esclareceu, em nota, que “já havia programado anteriormente uma ação de grafiteiros para realizar uma intervenção” naquele local “por meio de política pública de arte urbana da cidade que é Programa Colorindo o Recife”.

Grafiteiros são abordados pela Guarda Municipal e obrigados a parar intervenção na Rua da Aurora, centro do Recife

Para tentar apaziguar os ânimos – os artistas só queriam fazer um trabalho bonito –  a PCR convocou uma reunião com os grafiteiros, a fim de “promover uma escuta ativa” sobre o episódio “e esclarecer os critérios para a realização de intervenções urbanas em equipamentos e espaços públicos”. Conforme ainda a PCR, o parkskate já havia recebido  uma intervenção do artista Heber Oliveira, que executou obra de Manoel Quitério, junto com os também artistas Almir Pedro, Jonatha Rocha e Iraquitan Nascimento. Conforme, ainda a PCR, para execução de obras nas ruas da cidade há um cadastro de 129 artistas, selecionados mediante edital. Foram 94 inscritos na categoria painel e 35 na categoria de oficinas educativas. Do edital lançado em 2022, já foram executados 22 painéis na cidade. “E nove serão iniciados na próxima semana”. Não foi informado se os artistas repreendidos pela GM estão na lista dos 129.

No final da tarde da sexta, os grafiteiros se reuniram com Murilo Cavalcanti (Secretário de Segurança Cidadã) e Marcos Toscano (Inovação Urbana). E o trabalho foi,,, liberado! O resultado do encontro foi inclusive postado no Instagram  dos@amigosdaaurora. Porém, de acordo com a Prefeitura, estão em andamento as inscrições para credenciar artistas e produtores culturais para execução de mega murais.  Por enquanto, há cachês de R$ 6,5 mil, para as categorias oficina e painéis.  A Secretaria Executiva de Inovação Urbana esclarece que o Colorindo o Recife “promove a requalificação dos espaços urbanos através do grafite”. Mas pelo que se vê, a ação é organizada, com artistas pagos e em locais determinados pela PCR. Ou seja, não é para botar tinta e pincel na cesta e sair colorindo a cidade por aí não. Senão… vira zona. Agora, as pichações já transformaram o Recife em uma casa de mãe joana à mercê dos vândalos há muito tempo. Resta saber porque a Guarda Municipal não faz com os vândalos a mesma coisa que fez com os artistas que queriam apenas deixar o skatepark mais bonito e imune à ação dos pichadores.

O fotógrafo Veetemano João Mazela ia passando no local na hora da intervenção:

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos e vídeo: AgênciaJCMazela

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One comment

  1. Importante esse seu alerta Letícia! Apesar de entender que a pichação TB é uma forma de expressão, principalmente utilizada por grupos marginalizados da sociedade, em especial, jovens das favelas, entendo que por depredar o patrimônio público ou privado indistintamente, inclusive edificações tombadas, essa arte se transformou em crime e toda a sociedade abomina, com justa razão! Tenho alguns amigos grafiteiros e quase todos ex-pichadores, que trocaram o marginal pelo cultural e estão super bem! Quem dera se todos fizessem essa migração!! 🙌

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