Fotografias que retratam cenas cotidianas do século passado viram e-book e exposição

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Quem frequentou o centro da Capital pernambucana em seus tempos áureos, deve lembrar do Kiosque do Wilson, que funcionava na Rua Nova, onde marcou presença entre os anos de 1951 a 1983. Ele ficava na calçada ao lado da Igreja de Santo Antônio, com acervo alimentado por Wilson Carneiro da Cunha (1919-1986), repórter fotográfico também conhecido como “o fotógrafo do Recife”. E era mesmo. Durante  quatro décadas, documentou com “instantâneos” o cotidiano da cidade, a partir do seu quiosque: cenas de rua, dos personagens, fatos históricos, paisagens da cidade, festas populares como o carnaval. Nos momentos de descanso, fotografava a própria família e o ambiente doméstico.

Na sede do seu pequeno negócio, ele não só prestava serviços fotográficos, como vendia fotos com flagrantes da cidade. Uma dessas fotos é aquela que ilustra a campanha publicitária do filme “Retratos Fantasmas”, no qual Kleber Mendonça Filho mostra imagens nostálgicas do Recife do início do século passado, assim como a posterior decadência de bairros como Boa Vista Santo Antônio, após o fechamento dos seus cinemas. A foto de Wilson, escolhida por Kleber,  traz um antológico grupo de palhaços, durante dia de carnaval, no centro da cidade, provavelmente nos anos 1950. E é uma das milhares produzidas pelo profissional, que se apaixonou pela fotografia, desde o dia em que, ainda criança, achou uma máquina fotográfica quebrada e que levou para consertar.

Cena em família: Crianças ostentam a revista “O Cruzeiro”, que circulou no Brasil entre 1928 e 1975

Aos 17 anos, saiu em expedição pelo interior de Pernambuco, como assistente do fotógrafo austríaco J. Kaltnek, na função de retratista de lambe-lambe. A partir daí, não mais parou. Em casa, usava o tempo livre para documentar cenas de família, que tanto podiam ser filhos, a invasão da casa por uma enchente do Rio Capibaribe, animais domésticos. “Segundo minha tia Olegária, ele comprava os filmes para fazer o trabalho dos clientes e a sobra usava com a família”, relata Bia Lima, responsável pelo resgate do trabalho do do avô, inclusive as fotos familiares, como aquela que as crianças da família ostentam a revista “O Cruzeiro”, a mais importante do Brasil em boa parte do século passado, e que circulou entre os anos 1928 e 1975, em  caráter semanal.

Cenas documentadas por Wilson, inclusive de caráter privado, podem ser conhecidas a partir da quinta-feira (28/9), quando será lançada a publicação Wilson Carneiro da Cunha: do Instantâneo de Rua aos Registros Caseiros, a partir das 18h, na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) do Derby. A publicação, com 164 imagens, é em formato apenas de e-book. Traz, ainda, artigos sobre a importância do trabalho de Wilson, como os das historiadora Rita de Cássia, da Fundaj (“O fotógrafo da Rua Nova: Wilson Carneiro da Cunha e o Recife Moderno, 1940-1980) ; e também da historiadora Fabiana Bruce, da UFRPE (“O que vejo na fotografia de Wilson Carneiro da Cunha”?). Além do e-book, acessível de forma gratuita a quem quiser na Internet, a Fundaj inaugura exposição com 40 fotografias originais de Wilson que, durante tanto tempo fez “instantâneos” da cidade. Em 1983, com o desinteresse das pessoas pelos serviços do Kiosque, Wilson vendeu o seu acervo profissional para Fundaj.  A equipe de pesquisa do e-book e da exposição foi coordenada por Bia Lima, neta de Wilson, fotógrafa e arte educadora.

Ela divide e curadoria, autoria e organização da publicação com Bruna Rafaella Ferrer.  Ambas estarão na abertura da expô, para conversa com o público, para falar sobre o trabalho de pesquisa que demandou nada menos de dois anos. Segundo Bia, a prioridade dessa vez foi registrar o lado “instintivo, curioso e engraçado” das fotos feitas pelo avô. “Ele saía da rua, mas a rua não saía dele”, destaca Bia. Nessa mesma linha, a pesquisa identificou o gosto de Wilson por produzir fotos em série, também com o protagonismo dos filhos e esposa, com temas aparentemente banais: a geladeira nova, as capas de revista, a inundação da própria casa em enchente na década de 1970. “Ele dirigia as fotos, como uma fotonovela”, lembra Bia. O projeto é incentivado pelo Funcultura.

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Serviço
Wilson Carneiro da Cunha: do Instantâneo de Rua aos Registros Caseiros
Quando: Quinta-feira, 28 de setembro, 18h
Onde: Fundação Joaquim Nabuco, Derby (exposição no térreo, na Sala de Leitura Nilo Pereira, e bate-papo na Sala João Cardoso Ayres, 1º andar)
Endereço: Rua Henrique Dias, 609 – Derby.
Evento gratuito e com tradução simultânea em Libras. 

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Wilson Carneiro da Cunha / Divulgação

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Um comentário

  1. Que iniciativa maravilhosa esse e-book, Letícia! Lembro bem desse quiosque da Rua Nova, porque na adolescência e início da juventude frequentei muito aquela parte da cidade, principalmente Rua Nova e Imperatriz! Ótimas lembranças!!
    Que bom saber que esse acervo foi aproveitado!!
    Obrigado Letícia!!!

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