Espetáculo diferente: Ópera do Claustro “viaja” no tempo e em ônibus lotados

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Sei não… Sinceramente, achei muito indigesta a fotografia de divulgação de “A Ópera do Claustro”, na qual Armando Lôbo e Victor Luiz aparecem, em frente a uma fileira de bois mortos, escapelados, e pendurados em um açougue. Se um claustro já é ruim, imagine com uma “companhia” dessa, tão chocante inclusive para vegetarianos, veganos e defensores dos animais. Li todo o release sobre o espetáculo, para encontrar alguma referência a respeito do cru cenário da foto acima, mas não achei informação sobre a boiada morta. Porém o espetáculo me pareceu muito diferente, e aguçou minha curiosidade, como deve aguçar a do público em geral.

Na verdade, “A Ópera do Claustro” é a soma de duas outras, Artista da Fome (inspirada em um conto de Kafka) e Desachados e Perdidos (Victor Luiz), que ocorrem em caráter simultâneo, em um mesmo palco. As apresentações são gratuitas e acontecem  nos dias 7 de fevereiro (sexta-feira), 8 (sábado)  e domingo (9), no Teatro Hermilo Borba, que fica no Recife Antigo, área central da capital pernambucana. Nos dois primeiros dias o espetáculo será às 20h, mas no domingo o horário é mais cedo, às 17h. A ópera, pelo que se vê, tem de tudo um pouco, pois vai da Grécia e Roma antigas (A.C) ao Recife, passando por personagens dos séculos 16, 17, 20 e 21. Portanto, uma longa e diferente “viagem” por lugares e pessoas, na linha do tempo.

Viagem, também, por textos e imagens de grandes figuras das artes plásticas, do cinema, da literatura. Entre eles: Franz Kafka (1883-1924), escritor nascido em Praga, famoso pelo absurdo dos seus romances; Guillaume Apollinaire (1880-1918), escritor e crítico francês; Andrei Tarkovski (1932-1986), cineasta russo; Joseph Beuys (1921-1986), artista alemão; Pitágoras (490 A.C), filósofo e matemático grego; Ovídio (43 A.C), poeta nascido na Itália; Teresa d’Ávila (1515-1582), Santa espanhola; Nelson Rodrigues (1912-1980), jornalista e escritor pernambucano que fez fama no Rio de Janeiro; Miró da Muribeca (1960-2020), poeta muito popular, das ruas do Recife.

Ópera do Claustro, segundo seus autores, reúne pós-serialismo, minimalismos e outros ismos. Foi idealizada por aqueles dois artistas, possuindo dois libretos independentes  e duas escritas musicais altamente contrastantes. Curioso:  Artista da Fome, de autoria de Armando Lôbo, e Desachados e Perdidos, de Victor Luiz, são  “executadas simultaneamente e no mesmo espaço físico, algo possivelmente nunca tentado no gênero”. A performance , segundo a produção, alterna momentos de simultaneidade, fusão e intercalação entre as duas obras, em uma convulsão narrativa “que concilia lirismo e terror”. Uuuuuuiiiiiii….

Ópera do Claustro não tem cenário convencional, mas uma arrojada instalação visual a cargo do premiado artista paraibano, radicado no Recife, Marcelo Coutinho. Alguns espectadores serão convidados a assistir ao espetáculo dentro da cena, como participantes da mesma. A instalação foi concebida tendo as imagens de  “jaula” e “ônibus”, como signos do conceito “claustro”. A disposição espacial e supratemporal da “instalação” contradiz o tempo narrativo/cronológico da(s) ópera(s), configurando uma espécie de mundo paralelo, com leis próprias.

Pleno de referências literárias e filosóficas, o espetáculo tem direção cênica do multiartista pernambucano Armando Lôbo, e conta com a participação de cantores e músicos da cena pernambucana. A ópera Artista da Fome (Armando Lôbo) é baseada em conto de Franz Kafka e amplifica de forma fantástica os anseios imateriais do artista.  Desachados e Perdidos (Victor Luiz) é uma ópera de caráter ao mesmo tempo social e mágico. Reflete poeticamente sobre o tempo desperdiçado devido à precariedade do transporte público no Brasil. Ou seja, um tema bem atual e que afeta os milhões de usuários de ônibus e metrôs no País.

Confira, no vídeo abaixo, ensaio do espetáculo

Serviço:
De 7 a 9 de fevereiro – Ópera do Claustro, no Teatro Hermilo Borba Filho
Horários:       20h (dias 7 e 8)
Dia 9, domingo – Duas sessões: 17h e às 20h
Endereço: Cais do Apolo, 142 – Recife
Duração do espetáculo: ~70 minutos
Ingresso gratuito (obrigatória a retirada de senha 1h antes na bilheteria do teatro).

 

Armando Lôbo

Compositor, encenador, multiartista e pesquisador pernambucano, Armando Lôbo desenvolve gêneros e estilos musicais diversos, com o uso de matizes experimentais e abordagem conceitual de tonalidade filosófica. Também concebe e produz projetos artísticos interdisciplinares, unindo vídeo, performance, teatro, literatura, música e pesquisa histórica e antropológica.

Foi contemplado em diversos prêmios nacionais e internacionais, como compositor e também como diretor de filmes experimentais. Lançou 5 álbuns que mereceram cotação máxima da imprensa especializada. Sua obra tem sido executada por importantes grupos no Brasil, Europa e Estados Unidos. Lôbo é Ph.D. em composição cênica pela Universidade de Edimburgo, Reino Unido.

 

Victor Luiz

Compositor e educador musical recifense. Graduado pela UFPE e pela Universidade de Coimbra, Portugal. Participou de masterclasses com artistas relevantes como a compositora israelense Chaya Czernowin. Assina, ao lado de Manassés Bispo, a idealização e a coordenação do projeto “Mucambo”, que vem promovendo a produção e a divulgação da música clássica contemporânea em Pernambuco. Atualmente, é professor efetivo do Conservatório Pernambucano de Música.

 

Marcelo Coutinho

Artista e professor de artes visuais da UFPB e UFPE. Mestre em Comunicação pela UFPE, doutor em Poéticas Visuais pela UFRGS e pós doutor em Design e Cultura pela UFPE. Premiado em importantes mostras nacionais, participou das principais exposições de arte contemporânea do Brasil, entre as quais destacam-se a 30ª Bienal Internacional de São Paulo e várias edições do Panorama da Arte Brasileira, promovido pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. Trabalhando entre linguagens como o filme, a instalação e a performance, tem obras nos acervos do MAC- SP, MAM-RJ, MAM-BA, MAMAM-PE, entre outras instituições.

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