Diáspora africana e a brincadeira da “burrinha”: a conexão Benim-Pernambuco

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“Brincantes da Burrinha nas margens do Atlântico Negro: África Brasil em movimento diaspórico”. Gravem o título, que é bem comprido, e aguardem essa interessante exposição, que já esteve no Benin, e será inaugurada no sábado, 26 de julho (para convidados), em Pernambuco.  Mais precisamente na cidade de Condado. E que, depois, virá para Recife. Passará, também, por Redenção (Ceará) e São Francisco do Conde (Bahia), cidades que são consideradas emblemáticas para a cultura afro-brasileira.

Condado – localizada a 72 quilômetros da capital pernambucana – abre para o público a partir de segunda-feira, 28. O município foi a escolhido porque a sede do Cavalo Marinho Estrela de Ouro serviu como ponto de partida da “viagem” empreendida pela fotógrafa Roberta Guimarães, pela historiadora Joana D’Arc Lima (UFPE) e pelo  sociólogo Maurício Antunes Tavares (Fundaj). Na verdade, uma imagética “viagem” transatlântica, para reencontro das raízes culturais da diáspora negra que unem Brasil e África.

O projeto é inspirado pela mítica viagem de Pierre Verger e Roger Bastide, ao antigo Daomé (atual Benim) há mais de seis décadas. Em 1958, os dois intelectuais registraram os vestígios vivos da cultura brasileira entre os “agudás”, descendentes de africanos retornados do Brasil, reconhecendo nos festejos da “Burrinha” elementos do Cavalo Marinho e do Bumba-meu-Boi — manifestações típicas do Nordeste brasileiro. A expô  fotográfica foi idealizada por Joana D’ Arc, tem imagens de Roberta Guimarães, e participação de Maurício. Eles cruzaram o Atlântico, para revisitar os mesmos territórios e aprofundar os vínculos entre os folguedos populares do Brasil e da África Ocidental. O resultado é uma poderosa mostra composta por fotografias autorais de Roberta Guimarães, um documentário e textos curatoriais que dão vida às conexões culturais entre Pernambuco e o Golfo do Benin.

A expedição é fruto de um intercâmbio inédito entre manifestações e brinquedos típicos de Pernambuco e do Golfo do Benin, na África Ocidental. Ela fica disponível para o público pernambucano em Condado de 28/07 a 23/08, e se prepara para a exibição no Recife, na UFPE, a partir de setembro.

Na África, foram feitas cerca de quinze entrevistas com representantes de famílias dos retornados, da religião vodoo, pesquisadores e pesquisadoras, intelectuais beinenses e nigerianos. No Brasil,  o acervo de imagens fotográficas e entrevistas com os brincantes das práticas culturais da Zona da Mata Norte (onde fica Condado) chega a somar mais de 300 imagens, além das entrevistas. Assim, a exposição, que traz um recorte curatorial da pesquisa, é composta por fotografias e um vídeo documentário ricamente ilustrado com imagens e depoimentos dos brincantes e pesquisadores (as) entrevistados habitantes dos dois lados do Atlântico. “Mais que uma exposição, ‘Brincantes da Burrinha’ é um ato de devolutiva e resistência cultural, que amplia o debate sobre a Lei 10.639/03 — marco da obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira — e projeta a força da cultura pernambucana no cenário internacional. Um espelho vivo entre continentes, onde a memória popular atravessa o tempo e o oceano”, pontua a realizadora Joana D’Arc Lima.

A mostra, que promove rodas de diálogo, ações educativas e reflexões sobre identidade, ancestralidade e cultura popular tem incentivo Cultural: FUNCULTURA – Fundo pernambucano de incentivo à cultura, FUNDARPE – Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco  e Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife.

A Burrinha de Uidá, no Benim. Na foto superior do post, o grupo de Condado; ponto de partida da pesquisa

Serviço
Exposição Brincantes da Burrinha nas Margens do Atlântico Negro – África Brasil em Movimento Diaspórico
Quando:  abertura em 26 de julho de 2025, às 15h (para convidados)
Onde: Sede do Cavalo Marinho Estela de Ouro
Endereço: Av José de Anchieta Dourado, 467, São Roque, Condado PE
Visitação: de 28 de julho a 23 de agosto de 2025, de segunda a sábado, das 10h às 17h
Acesso gratuito

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Roberta Guimarães / Divulgação

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