Crise hídrica: “Tenho sede” e “essa sede pode me matar”, adverte Gilberto Gil

O Brasil vive talvez a maior crise hídrica de sua história. Uma crise tão grande que já afeta a geração de energia e leva a níveis preocupantes grandes reservatórios, como o Sistema Cantareira, o maior da Região Metropolitana de São Paulo. Ou seja, estiagem não é mais problema só do Semi-Árido. Porém, no Sertão, a escassez d´água é um fenômeno secular, que já obrigou milhões de famílias a deixarem a caatinga, por conta de lavouras devastadas pela seca. No Nordeste,  premida pela necessidade, a população sertaneja aprendeu a não desperdiçar. E o que é melhor, a armazenar a água da chuva, para garantir o abastecimento das famílias durante os períodos secos. Mas ainda há sede. E com ela, o fantasma da fome fica maior.

No Semi-Árido até que chove.  Porém as chuvas são concentradas em certos períodos e mal distribuídas. E como o clima é muito quente, as águas que ficam nas superfícies logo se evaporam. Para que elas sejam armazenadas, a Articulação Semi Árido Brasileiro  (ASA) lançou no final do século passado o Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC). A proposta  foi construída em 1999, durante encontro preparativo que aconteceu no Recife para Conferência das Partes (COP 3).  Lembro-me que, já naquela época, a crise hídrica e a desertificação foram temas muito discutidos na reunião internacional. Nele foi fixada a missão de construir 1 milhão de cisternas no Semi-Árido, o que resultou em uma grande mobilização da sociedade civil, sindicatos, ongs, igrejas, prefeituras. Ao todo, mais de 3 mil entidades juntaram forças para concretizar a ideia. O Governo Federal terminou aderindo à iniciativa, financiou boa parte do trabalho, mas nos últimos anos os recursos sofreram redução que chega a por cento. Mesmo assim, com a ajuda de doações, cerca de 1 milhão 200 unidades foram construídas.

Para que mais sertanejos tenham acesso à água potável via cisternas, foi lançada hoje a campanha Tenho Sede. Inspirada no clássico do repertório de Dominguinhos, ela é capitaneada por Gilberto Gil e entrou no ar às 11h dessa sexta-feira.  “Traga-me um copo d´água, tenho sede / E essa sede pode me matar / Minha garganta pede um pouco d´água / E os meus olhos pedem teu olhar”. A intenção é mobilizar recursos financeiros para a construção de mais um milhão de cisternas de placas no Semiárido. A demanda foi calculada  com base em estimativa levantada pelo próprio Governo Federal, em 2019. As doações poderão ser feitas pela internet através do site www.tenhosede.org.br.  Para quem sempre teve água na torneira,   talvez seja difícil dimensionar a dificuldade de quem não vive essa realidade, como ainda ocorre no Sertão do Nordeste, onde nos períodos mais  críticos, homens e animais chegam a disputar a mesma água suja dos barreiros. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), uma pessoa precisa de pelo menos 110 litros de água para atender as necessidades básicas durante um dia. No meio rural e em muitas periferias milhares de pessoas não têm esse direito assegurado.

A campanha Tenho Sede também prevê uma segunda fase, na qual já conta com a parceria do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste – Consórcio Nordeste, que vem junto com a ASA envolvendo as Companhias Estaduais de Água e Saneamento dos estados do Nordeste. À medida que essa parceria for se consolidando, os usuários dessas companhias também poderão fazer suas doações com o débito direto na fatura. As cisternas mudam a vida das famílias. Como aconteceu com a de Josefa Quirino de Albuquerque. Ela carregava lata d’água na cabeça de uma distância que variava de 2 km a 12 km, dependendo do avanço da estiagem. Ao chegar em casa colocava um pano na boca do pote de barro para afastar os possíveis insetos e eliminar impurezas presentes na água dos barreiros, açudes e riachos. Durante muitos anos essa era a água da família de  Nêna, como Josefa é mais conhecida. Ela vive na zona rural do município de Cumaru, na comunidade conhecida como Rodrigues, em Pernambuco.   

Desde 1999, a implantação de cisternas vem mudando a vida dos moradores da caatinga do Nordeste.

Hoje a família de Nena ainda precisa de outras fontes para atender à demanda da sua propriedade. “Já tem a [cisterna] de beber, se tivesse a de produção seria muito bom,” sonha a agricultora. Após a implantação do P1MC, a ASA começou a implanta o P1MC2, destinado a armazenar água para garantir a produção de alimentos. Cheguei a visitar algumas pequenas propriedades rurais, beneficiadas com a segunda iniciativa.

Infelizmente, os rumos da política brasileira nos últimos anos levaram o país a voltar ao Mapa da Fome Mundial, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), drama que tende a se agravar com as mudanças climáticas, e sem a devida rede de proteção social. A sede também segue sendo um problema, faltando reservatórios para armazenar a chuva e assim garantir água para as famílias beberem e produzirem alimentos. Sem água, a fome também vem.

Veja o vídeo de lançamento da campanha com música de Dominguinhos (Tenho sede) e voz de Gilberto Gil. “Ajude a ASA Brasil a construir cisternas para essas famílias. Faça uma doação”, convoca o o artista. Eu assino embaixo. Como repórter, vi o surgimento da proposta de criação da Asa, o lançamento do P1MC, os seus bons frutos e até uma segunda fase do programa, com construção de reservatórios para garantir a água para a produção de alimentos. E, nos links abaixo após o vídeo, você pode conferir outras informações sobre o Sertão.

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Texto : Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Agência Quintal / Divulgação
Vídeo: Divulgação / ASA

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