Em plena crise das relações do Palácio do Campo das Princesas com a Polícia Militar, o modelo de segurança ofertado aos cidadãos do Recife é, no mínimo, curioso. Hoje, como faço todas as manhãs, caminhei pela Zona Norte, onde sempre costumo me defrontar com duplas de soldados da PM. É comum vê-los em ruas e praças, principalmente. Nessa segunda, no entanto, só vi dois, em todo meu percurso a pé, que durou quase duas horas. Me defrontei com um estardalhaço de soldados do Exército no Parque da Jaqueira: nas duas entradas, espalhados pela Rua do Futuro e redondezas, carros pesados, armas exibidas ostensivamente. Parecia que estavam preparados para a guerra, talvez com razão, porque os números de vítimas de homicídios, em Pernambuco, bem que lembram os de uma guerra mesmo. Até porque, em novembro, o total de assassinatos já superava todo o quantitativo registrado em 2015.
A concentração de soldados do Exército, pelo menos por onde caminhei passando por vários bairros, só foi vista na Jaqueira. Por que só a Jaqueira? A gente sabe que os frequentadores vêm se queixando de assaltos ali e no entorno. Na semana passada, por exemplo, um grupo de jovens foi surpreendida na chamada Praça dos Cachorros, em frente ao Parque. Um ladrão armado recolheu os celulares de duas das três amigas. Foi na noite de sexta-feira. Mas será que assaltos só acontecem lá? E no resto da cidade? Passei por, pelo menos, oito praças. Em nenhuma delas vi os representantes das forças federais. Estive, também, no Parques da Macaxeira, no de Santana e no Sítio da Trindade. Quem viu algum soldado do Exército lá? Eu não enxerguei nenhum. Nem em praças, como a de Casa Forte. Com um agravante: nem soldados da PE nem da PM. Estes sumiram mesmo. Então, tem segurança no sofisticado Parque da Jaqueira? Mas porque falta em outros, mais populares, como o da Macaxeira? E os PMs onde foram parar? Os responsáveis pela nossa “defesa social” precisam nos explicar melhor as estratégias de segurança, em meio à crise do setor.
Saindo do Parque da Jaqueira, encontrei um solitário PM. Indaguei: ”Como está a greve branca de vocês?”. Ele respondeu: “Não estamos fazendo greve, senhora”. Então, perguntei: “E por que não tem nenhum soldado na rua, só você, aqui nessa área tão movimentada?”. Ele respondeu: “Estou trabalhando, mas lutando pela legalidade”. E explicou: “Do mesmo jeito que o governo quer que o cidadão faça tudo certinho, cumpra suas obrigações, nós da PM, também esperamos isso do governo. A gente só quer a legalidade. O governo age ilegalmente conosco em muita coisa”.
Contou da falta de munição, dos coletes à prova de balas vencidos, de viaturas sem manutenção adequada, do desrespeito trabalhista nas jornadas. Continuei minha caminhada. Para o Presidente da Associação de Cabos e Soldados de Pernambuco, Alberisson Carlos, a presença do Exército nas ruas só mostra “a falta de capacidade de diálogo do governo” e “a incapacidade de tratar a questão da segurança pública”. Enquanto nada se resolve, entre a PM e o Governo, o Exército continua nas ruas. Mas a população espera que ele não haja, assim, de forma tão concentrada. E que a PM não desapareça. É como diz o velho ditado: ruim com ela, pior sem ela. #OxeRecife.
Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife
