Com peças furtadas por marginais, monumentos são recuperados com uso de materiais mais baratos

Uma das missões do #OxeRecife é, também, defender o nosso patrimônio cultural. Por esse motivo, costumamos denunciar sempre o furto de estátuas e os atos de vandalismo tão comuns na cidade, como aconteceu – por exemplo – com o Parque de Esculturas Francisco Brennand, cuja pilhagem gigantesca foi denunciada em primeira mão e com exclusividade nesse espaço. Também acusamos o furto de várias outras peças espalhadas pela cidade, como o busto de Frei Caneca. Mas, agora, há uma boa notícia: é que em 2024, doze estátuas foram recuperadas, segundo informa a Autarquia de Limpeza Urbana e Manutenção do Recife (Emlurb), atendendo a pedido aqui do Blog.

Entre as peças recuperadas, encontram-se o Monumento ao Maracatu, do saudoso escultor Abelardo da Hora (1924-2014), na Praça das Cinco Pontas, no bairro de São José, que estava sem  pálio, estandarte nem lampião. Ou seja, o “cortejo” que representa uma das heranças da cultura africana,  havia ficado sem  os seus principais símbolos. O material do monumento – o bronze – é alvo de cobiça entre os marginais, devido ao seu alto valor de mercado. Por esse motivo, algumas das peças que haviam sido roubadas foram recuperadas em fibra de vidro. Outro monumento recomposto foi o “Mascate”, que ficava próximo ao Camelódromo, e que foi furtado por vândalos, só restando a base de cimento. “O Mascate já voltou ao ser lugar, porém esculpido em concreto”, informa Carlos Luna, responsável pelo setor de conservação de  monumentos da Emlurb. É que o “Mascate”  anterior era esculpido em bronze e os ladrões roubaram a peça inteira.  Com certeza, para vender derretido em ferro velho, como fizeram com as peças do Parque de Esculturas do Marco Zero. Quem quiser ver a segunda versão do Mascate vai, portanto, perceber diferenças, pois a primeira era bem mais delicada.

Mas que jeito, se aqui na capital rouba-se de uma estátua inteira a placas de bronze ou cobre de nossas pontes?  Ou  furta-se dezenas, como ocorreu com o museu a céu aberto no Bairro do Recife ? Segundo a Emlurb, a despesa com recuperação de patrimônio vandalizado chega a quase R$ 2,5 milhões por ano.  Mas isto é o que se gasta no chamado feijão com arroz. Porque além do valor utilizado na recuperação das peças enumeradas em 2024, neste ano o Prefeito João Campos (PSB) entregou, por exemplo, o Parque de Esculturas Francisco Brennand, que fica em frente ao Marco Zero do Recife. As obras de requalificação do museu a céu aberto consumiram a bagatela de R$ 9,5 milhões, incluindo a reposição de réplicas das 64 das 79 peças que foram roubadas na gestão anterior, que nada fez para impedir a pilhagem e muito menos para recuperar o assalto a aquele patrimônio público e artístico, que virou uma das principais atrações turísticas do Centro. 

Além do Monumento ao Maracatu e do Mascate, você pode conferir na tabelinha abaixo, os que foram recuperados em 2024, segundo a Emlurb.  Entre eles, as esculturas de Joaquim Cardoso (Ponte Maurício de Nassau), Carlos Pena Filho (Praça da Independência) e Tarcísio Pereira (da Livro 7, Rua Sete de Setembro) que integram o Circuito da Poesia. O abolicionista Joaquim Nabuco teve duas estátuas recuperadas, o belo monumento que fica na Praça Joaquim Nabuco (que teve a mão decepada) e o seu busto (na Rua da Aurora). Também  foi recuperado o Monumento à Guerra do Paraguai (na Praça Maciel Pinheiro), o das Batalhas Navais (Avenida Cruz Cabugá), o do Gari (Avenida Agamenon Magalhães), o de Simon Bolívar (Santo Amaro). E ainda o busto de Miguel Arraes (no Parque da Macaxeira), o da Convenção de Beberibe (em Beberibe) .

Ainda não chequei as obras realizadas por completo, o que deixarei por fazer em uma das próximas caminhadas em grupo pelo Centro. Mas hoje pela manhã, caminhando pelo Parque da Macaxeira, deu para perceber que “a recuperação e aplicação gorda de cimento” deixou o busto de Miguel Arraes bem mais grosseiro do que antes.

Também á chegaram comentários aqui no Blog que a estátua do Mascate ficou “mais grosseira”. E até tem gente reclamando do tamanho “grande” da mão de Joaquim Nabuco, ali perto do Restaurante Leite, no bairro de Santo Antônio. Mas segundo o historiador e turismólogo Bráulio Moura, a mão era originalmente um pouco “desproporcional” mesmo.  E de acordo com Carlos Luna, os novos materiais utilizados – como cimento e fibra de vidro – não comprometeram, a estética dos monumentos. Então… tá!

Na galeria abaixo, com fotos da Emlurb, você confere o antes e o depois da recuperação de alguns dos doze monumentos enumerados.  Os gastos com  recuperação não foram poucos.  O custo maior foi com a restauração do Monumento ao Maracatu (R$ 54.564), mas os demais não saíram baratos, como o Mascate (R$45.228) e o da Praça Joaquim Nabuco (R$46.098).

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Sol Pulquério/ Divulgação/ PCR e Emlurb / Divulgação
Agradecimentos ao amigo Hans Von Manteuffel  que,  atendendo a pedido do #OxeRecife, “tratou” as imagens da Emlurb, e converteu o PDF enviado pela assessoria de Imprensa da autarquia  em formato JPG

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