Cineclubes: a conexão Brasil – Alemanha

Movimenta Cineclubes e Organização Popular já se espalha por cerca de 30 bairros do Recife. Como resido na Zona Norte, estive no último sábado na sede do Conselho de Moradores de Apipucos, para participar do encontro do Luila e Pretinha, como é chamado o braço do Movimenta naquele bairro. Achei a reunião muito interessante porque induz a população a refletir. Refletir sobre seus problemas, as demandas da comunidade e a situação delicada do país de momentos tão difíceis quanto os que estamos vivendo. Encontrei dois alemães que vieram pesquisar os cineclubes brasileiros, nos quais pretendem se espelhar para implantação de modelo semelhante em Munique, onde residem. Reclamam que na Europa “não há cultura de cineclubes como no Brasil”.

Na sede do Conselho, conversei com Felicitas Sonvilla e Patrick Thomas (foto ao lado). No Brasil para pesquisar a cultura de cineclubes no País,eles já passaram pelo Rio de Janeiro e Belo Horizonte. No Recife, fizeram gravações na sessão do Luíla e Pretinha. Os dois são pesquisadores e participam do The Random Collective e fundaram o cineclube alemão Gato Aleatório. .

Os dois comemoram o que colheram em terra brasileira. Pretendem inclusive voltar ao Brasil para exibir o documentário que fazem sobre nossos cineclubes. Deles, esperam – também – tirar uma lição: “Na Alemanha no geral e em Munique, em particular, não existe o conceito cineclube e queremos mostrar como funciona aqui”, diz Felicitas. Os alemães filmaram iniciativas como as observadas no Rio de Janeiro, onde encontraram cineclube funcionando até sob um viaduto (em Taquara, Zona Oeste). Na cidade de Duque de Caxias (na Baixada Fluminense), acharam um outro em uma igreja abandonada. “Virou um centro cultural”, diz ele. Em Minas Gerais,  descobriram o Horizonte Periférico, movimento no qual jovens de rua aprendem a fazer cinema. Alguns já sobrevivem com a sétima arte. Outros, no entanto, não conseguiram sair das ruas. Patrick se dispôs a ensinar moradores de Apipucos a fazer cinema “até filmando com o celular”. Mas explica: “A gente tem muito a ensinar e mais ainda a aprender com vocês”. Os dois regressaram a Munique no último domingo, levando cerca de cem horas de gravação, que pretendem transformar em documentário.

Já os jovens que fazem o Movimenta não contam com nenhum tipo de financiamento até agora. E estão nas ruas mesmo por amor à causa. O último encontro, em Apipucos, contou com ajuda do bolso dos próprios integrantes para compra de lanches, sucos, água. A comunidade também colabora, levando o que pode, inclusive cadeiras para o público. Cada sessão é divulgada nas redes sociais, e em 100 panfletos e seis cartazes, que são distribuídos na comunidade. Em Apipucos, fazem parte do Luila e Pretinha os seguintes facilitadores: Duda Freyre, bioarquiteta e artista de dança); Andréa Almeida (jornalista, comunicadora social e facilitadora); Roberta Coutinho (professora, comunicadora e pesquisadora de audiovisual); Nathália Mesquita (gastrônoma e especialista em agroecologia); Mateus Santos (gastrônomo). “O que é importante é que a gente está conseguindo, finalmente, acreditar no processo de união popular, na partilha, no fazer coletivo”, diz Duda.

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Texto e fotos:  Letícia Lins / #OxeRecife

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