Campanha “Tenho Sede” rende frutos

Criada com objetivo de angariar recursos para levar água a famílias carentes do Sertão, a Campanha ‘Tenho Sede” começa a render frutos.  É que para 20 famílias dos dez estados do Semiárido brasileiro, o sonho de ter água adequada ao consumo humano perto de casa começa a se tornar realidade. É que elas são as primeiras contempladas com cisternas de 16 mil litros, viabilizadas com recursos da ação.

A Campanha “Tenho Sede” foi lançada pela Articulação do Semiárido (ASA), entidade criada por força de mobilização da sociedade civil, com o propósito de levar água potável às populações da caatinga que, nos períodos mais críticos das estiagens, chegam a disputar a mesma água dos barreiros com os animais, como bodes e porcos. Foi, então, criado o Programa Um Milhão de Cisternas ( P1MC),  que logo ganharia apoio dos órgãos oficiais. Porém, na gestão do ex-capitão, o P1MC atingiu baixo número de implementações, sendo 2021 o ano de pior índice já verificado pelo programa, que conseguiu implantar apenas 4,3 mil tecnologias, executando um orçamento de aproximadamente R$ 29.050.462,15, segundo cálculos da ASA. “A demanda da região é de 1 milhão de cisternas. O cenário revela o longo caminho que a Campanha Tenho Sede tem que percorrer”, informa a ASA.

A água começa a chegar em municípios como Ouricuri (PE) e Jacobina (BA). “Agora é só alegria! É água limpa para acabar com as dificuldades para cozinhar, para o banho, comemora a agricultora Creusa Santana, uma das contempladas com a cisterna. Ela é da comunidade Fazenda Várzea, no município de Jacobina, no Semiárido baiano. Os planos de Creusa incluem também aumentar a produção de alimentos. Uma vez que, com a cisterna, ela terá, perto de casa, água boa e em quantidade suficiente para o uso doméstico, a água da cacimba “para fazer hortaliças, para crescer a plantação”, planeja a agricultora.

Os próprios lavradores trabalham na implantação de suas cisternas e aprendem até a construir para os vizinhos.

 

Como destacou Creusa, a cisterna garante água boa para o consumo humano, poupa tempo e esforço físico, que passam a ser investidos na produção alimentar. Nas áreas rurais, os sertanejos perdem longos períodos buscando água em açudes e barreiros, muitas vezes infectos.  Assim, a  cisterna minimiza estatísticas como as que mostram que a fome dobrou nos lares sem acesso à água, saindo de quase 23% para quase 46%. A agricultora e porta-voz da Campanha Tenho Sede, Josefa Querino, do Semiárido pernambucano, conquistou uma cisterna em 2003 e sente os benefícios na produção alimentar. “Quando chove é muito bom porque, além da água da cisterna, nós vamos plantar um pé de coentro, uma fava, um jerimum. Dalí, a gente tira para o consumo”, explica.

É assim que Dona Creusa espera se ver em breve com a cisterna cheia e o quintal produtivo com vários alimentos. Os critérios para a escolha dos beneficiados foram os mesmos adotados pelo Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), que levam em conta a condição de vulnerabilidade social e econômica da família. Neste perfil, se enquadram condições como morar na zona rural, não ter acesso à água encanada, estar em condição de extrema pobreza, ser uma família chefiada por mulher, por exemplo. À medida em que preenche a maior quantidade de critérios, a família ganha  prioridade na seleção. Esta avaliação é feita em meio às reuniões das Comissões Municipais da ASA, com base nos dados sociais das famílias.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: ASA / Divulgação

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