Bloco do Nada sai com tudo

“O Recife tem, o carnaval melhor do meu Brasil”, já diz o “Último Regresso”, de Getúlio Cavalcanti. Mas não é só o Recife não. É Olinda, é Pernambuco. Carnaval é uma festa linda, e cada estado faz o seu. Mas duvido que haja algum outro, no Brasil, tão diversificado como o nosso. É caleidoscópico, é democrático, é  mágico, é multicultural. Mas, de minha parte, gosto muito de ver os bois, os ursos, os caboclos de lança, os maracatus de baque virado, os blocos líricos. Mas gosto, muito, também, do carnaval alternativo via agremiações como Nem Sempre Lili Toca Flauta, Grito da Véia, Nóis Sofre Mais Nóis Goza, o Bloco do Nada.

Por esse motivo, mesmo com o pé avariado, me atrevi a sair de casa. E pelo menos dois blocos, eu não podia perder: “O Nóis Sofre” e o “Bloco do Nada”. O primeiro, estive no sábado, e arrisquei até a pegar o estandarte,  em alternância com meus amigos Manoel Constantino e Cícero Belmar.  O segundo fui hoje à tarde, no Pátio de Santa Cruz, onde a agremiação de estandarte branco e vazio se concentrou. É assim mesmo, bloco do nada, não tem nada escrito nem bordado no estandarte. É uma questão filosófica. Antes dei uma passadinha no Mercado da Boa Vista, que estava uma delícia, nessa segunda-feira. Para mim, principalmente, que devido à avaria no pé, não seria prudente enfrentar multidões de Olinda nem do Recife Antigo. Encontro também, minha prima Ana Cristina, que veio de Maceió, com o pé tão avariado quanto o meu. Então o bairro da Boa Vista estava sob medida para nós.

Além da  programação oficial, o carnaval do Recife e Olinda oferece o encanto dos blocos alternativos.
Além da programação oficial, o carnaval oferece o encanto dos blocos alternativos que fazem a festa dos foliões no Recife.

Pois o Bloco do Nada estava ótimo, com concentração em frente ao Bar Lisbela e o Prisioneiro. E na saída terminou se misturando com bois, emas, jaguarás,  que desfilaram no Pátio de Santa Cruz. Integrantes de blocos líricos que passavam pelo local, também se misturaram aos foliões do Nada. Uma coisa assim, bem espontânea, meio desorganizada, como o verdadeiro carnaval. O Bloco do Nada foi criado por professores da Universidade Federal de Pernambuco, entre discussões filosóficas sobre o que é o tudo e o nada. Eles chegam a discutir o significado do nada, em reuniões na semana pré-carnavalesca. Já fizeram encontros sobre o tema até no auditório da Livraria Cultura, sempre com a platéia cheia.

Assisti uma dessas discussões, há alguns anos. E nunca esqueci. Cada filósofo com muito papel para ler, para discutir. Parecia até que iam defender uma dissertação de Mestrado. No meio de altas filosofias sobre o que é o nada, uma senhora alheia ao bloco aparece no meio da discussão. Bem vestida, estilo perua, com jóias, cabelos impecáveis, ouve tudo atenta. E aí pede um aparte: “Eu estava em casa, fazendo… nada.  Vim então para o Paço Alfândega comprar alguma coisa, mas… não comprei nada. Procurei algo para fazer, não achei… nada. Então soube que havia aqui (no auditório da  Livraria Cultura) um debate sobre… o nada, e vim ver do que se tratava.  Mas, sinceramente, nunca pensei que o nada fosse tão complicado”. Todos riram.  Mas no carnaval, o Nada não complica… nada, levou uma grande orquestra, e arrastou na tarde dessa segunda uma verdadeira multidão. Ou seja, o Nada, estava mesmo era com tudo.

Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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