“Muitas árvores são tidas como árvores da vida, outras como árvores-mães. Mas só ao baobá, além dessas e de outras adjetivações, cabe a de maior colosso vegetal do mundo”, afirmou o antropólogo Fernando Batista, em palestra no Projeto nos Pés do Baobá, evento para assinalar o Mês da Consciência Negra, promovido pelo Sesc na Praça do Campo Santo, em Santo Amaro, na Zona Norte do Recife.
Ele é autor de dissertação de Mestrado (pela Ufpe) sobre a presença da árvore no Ilê Axé Opô Aganju, em Lauro de Freitas, BA. E dá continuidade no doutorado sobre a sacralidade da árvore no candomblé baiano (Ufba). Fernando (na foto, à direita) é conhecido, também, como o Semeador de Baobás, por ter realizado plantio dessa espécie (Adansonia digitata) em vários estados do Brasil, inclusive na Bahia (onde reside atualmente) e no Distrito Federal. Ele veio a Pernambuco para participar de mesa de discussão tendo como tema O Baobá como ícone no resgate, e reafirmação da identidade cultural, histórica e religiosa do povo negro. O encontro foi no último sábado. Além dele, participaram o historiador Luís Paulo Pinto (E) e Inaldete Pinheiro (C). Ela tem uma longa história de militância e é fundadora Movimento Negro em Pernambuco. O encontro foi no último sábado.

E o local escolhido não foi à toa. Isso porque na Praça do Corpo Santo existia um baobá que sucumbiu aos maus tratos. Ele tombou (à esquerda), já que seu tronco havia virado mictório e suas raízes apodreceram devido à ação da urina de gente sem noção e desalmada. Em 2006, foi plantado um outro Baobá no mesmo local, por iniciativa da então Delegada da Mulher, Cláudia Molina.
A árvore plantada, felizmente está viva (D). Esperamos que a ação nefasta do homem não lhe dê o mesmo triste destino da anterior.Fernando explica porque o baobá é chamado a árvore da vida. “E não é só porque dele tudo se aproveita: das raízes às sementes, mas sobretudo pela sua longevidade. A árvore atravessa séculos e alcança milênios. Daí ser chamada de ‘Árvore dos mil anos’ pela comunidade científica francesa”. E por que árvore-mãe? “Não só porque alimenta e mata a sede de seres humanos e animais, mas também cura, graças, sobretudo ao fruto de alto poder nutritivo e, como identificado recentemente pelos italianos, de alto poder antioxidante também. Como mãe, também oferece abrigo, literalmente falando, a vivos e … mortos”. Isso porque em comunidades senegalesas, o seu imenso tronco também serve como sarcófago. Mas o túmulo observado na África não é para qualquer mortal, como observa o antropólogo, ao explicar mais essa entre as muitas funções da árvore.
Tão sagrada e mágica, o baobá abriga mortos importantes para algumas sociedade africanas, conforme explica Fernando. “São aquelas figuras identificadas no Mali como dieli e por nós, copiando os franceses, de griôs, os respeitados e venerados sábios africanos, cujos corpos – obviamente depois de mortos – são depositados no oco do tronco de alguns baobás, justamente para se manterem vivos, enquanto viva estiver a árvore, nas memórias social e afetiva das gerações vindouras”. Fernando lembrou que essa função impressionou o poeta João Cabral de Melo Neto, que escreveu o poema O Baobá Como Cemitério, quando cumpria missão diplomática no Senegal.
Também foi a presença da árvore na vida dos senegaleses, que chamou a atenção de Inaldete em sua viagem a aquele país, no século passado. A importância que ela percebeu da árvore para os povos africanos, a motivou a resgatar no Recife o significado do Baobá para as populações afrodescendentes. “Quando voltei do Senegal, o baobá tinha se ressignificado para mim”, conta. “Com as raízes fincadas na terra,o baobá ocupa o lugar depositário do fundamento e do axé, que só existe graças aos mais velhos. Daí se encontrar associado na Bahia aos voduns (Nanã, Omulu e Oxumaré), divindades do candomblé que remetem à ancestralidade como pilares de nossa existência”, diz Luís, que falou sobre a importância do baobá para os terreiros de candomblé da Bahia. O evento foi encerrado com apresentações do grupo Yabás de Xambá e Balé Afro Raízes, com Danças para Iansã. Ao final, um cortejo até os pés do baobá, claro.
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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife
