Após ameaça de sumir, Colégio Americano Batista tem reforma questionada: descaracterização

 Após ameaça de sumir, Colégio Americano Batista tem reforma questionada: descaracterização

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Depois da polêmica envolvendo o projeto REC Cultural, mais uma no Recife. Dessa vez sobre o Colégio Americano Batista, que esteve ameaçado de ser demolido, e depois correu o risco de transformar-se em complexo de lazer, que incluía um centro comercial tipo shopping center. Mas que terminou sendo adquirido pelo Governo de Pernambuco, que pretende construir ali um colégio, respeitando-se a arquitetura do prédio principal do estabelecimento secular.

Mas já tem gente reclamando da “reforma” providenciada pelo governo estadual. Uma dessas pessoas é o engenheiro Denaldo Coelho, do Grupo Bora Preservar, que promove ações (caminhadas) para maior conhecimento do Recife assim como para motivar a população e órgãos públicos quanto à manutenção e restauração de monumentos históricos. Nos grupos sociais, ele manifesta protesto pela “cena triste”, que diz presenciar no colégio. No qual inclusive, diga-se de passagem, estudou o sociólogo Gilberto Freyre.

Colégio Americano Batista, pouco antes de ser desapropriado, com a cobertura original

O fato de ter sido matriculado no CAB possibilitou ao então estudante (que depois seria um escritor mundialmente consagrado) uma prática não tão comum naquela época, quanto o  é nos dias de hoje: fazer curso superior nos Estados Unidos. Ele estudou Ciências Jurídicas e Sociais na Universidade de Baylor, no Texas, entre 1918 e 1921. Denaldo informa que a recuperação do prédio do Colégio não está sendo feita como deveria, respeitando-se os materiais originais. “Se por um lado a gente fica contente com essa restauração, por outro achei de muito mau gosto o novo telhado, com material de plástico”, reclama. Várias reclamações chegaram aqui no #OxeRecife também  reclamando das novas cores da edificação. Realmente, estão bem esquisitinhas…

Denaldo lembra que uma instituição como aquela, com sua imponente arquitetura, deveria ser integralmente preservada. O Colégio Americano Batista começou a tomar forma em 1906, sendo implantado para atender a crianças pobres cujos pais não tinham condições de pagar-lhes escolas particulares, naquela época  as ofertavam ensino de boa qualidade. Treze anos depois, o pai da ideia – o missionário H.H. Muirhead –  compra uma chácara, no Parque Amorim, onde foi instalado o colégio, para atender a alunos dos bairro das Boa Vista, Madalena, Encruzilhada, Casa Forte, Casa Amarela e outras.  A ideia original era que o prédio fosse inspirado em um dos símbolos dos Estados Unidos: a famosa Casa Branca, residência oficial do Presidente americano de plantão. O terreno é uma das poucas áreas com muito verde ainda sobrevivente no Parque Amorim e virou alvo da especulação imobiliária. Até que a Governadora Raquel Lyra (PSDB) acabou com a festa, e decidiu pela compra. Mas depois da compra… a recuperação é outra história!

Aliás, o uso das cores em edifícios seculares parecer não ser o forte nem do Governo de Pernambuco nem da Prefeitura do Recife. É só dar uma olhada na Escola de Referência do Ensino Médio Pompeia Campos, que fica instalada no  prédio da antiga fábrica de tecidos da Macaxeira. Com amarelo escuro, o prédio chamava logo a atenção de quem passa por aquela área. Agora,  está sendo pintada com um tom pálido, quase morto no estabelecimento estadual. A  nova pintura do Americano Batista também chama a atenção pelo gosto duvidoso. Outro mau exemplo é o chalé do Sítio da Trindade, que é mantido pela Prefeitura do Recife. Ele era rosado e detalhes decorativos nas paredes e os lambrequins eram amarelos, destacando a bonita arquitetura do casarão histórico. Com a sua transformação em Memorial da Democracia, o imóvel foi todo pintado de branco, com as janelas e lambrequins vermelhos.  Com a parede toda branca, os detalhes decorativos ficaram imperceptíveis. O que é uma pena, pois o  velho chalé perdeu boa parte de sua beleza.

Abaixo, você confere mais informações sobre casarões e edificações antigas do Recife 

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Denaldo Coelho / Grupo Bora Preservar / Cortesia

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2 Comments

  • Mais um texto irretocável Letícia! Parabéns por replicar esse tema tão sensível e importante para a toda a comunidade. Muitas vezes as pessoas e as autoridades não se dão conta de que o que queremos é preservar esse riquíssimo patrimônio histórico e cultural para as gerações futuras, para não ficarmos caminhando pela cidade dizendo que ali tinha uma ponte, acolá um casarão e mais adiante um arco e tudo num passado que não volta mais e que vai alijando as crianças e jovens de terem contato com esses bens maravilhosos, que vão deixando um vazio que aos poucos vai produzindo a perda do senso de pertencimento! Algo muito triste!

  • Letícia, sobre as novas cores do Antigo Colégio Americano Batista adquirido pelo governo do estado, não vejo nada de mais. Acho que deveria mudar mesmo. As cores condizem com um ambiente feito para receber crianças e adolescentes. Cores vivas, vibrantes imprimem alegria e vitalidade ao recinto. Sobre a descaracterização da arquitetura, se está havendo, não acho tão relevante assim. A arquitetura é uma réplica sofrível e simplificada de uma edificação da terra do tio San. Não acho que tenha tanta importância para nós. Agora demolir e descaracterizar nossos casarões isso sim, é reprovável, lamentável e criminoso.

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