Adilson e o resgate das pedras

Pensem em uma dor de cabeça. Artesão – fabrica caixinhas, jarros e porta trecos – Adilson Hermman se viu órfão de repente. Órfão de pedras cerâmicas, com as quais costumava revestir seus objetos, já que muitas delas tinham elementos decorativos que remetiam à cultura do Nordeste: bumba-meu-boi, baianas, balões juninos, jangadinhas, peixes, motivos florais. As pedras, no entanto, sumiram do mercado. E ele se sentiu, como diz a gíria, no mato sem cachorro. Não achava no Recife as cerâmicas que tanto enriqueciam seus trabalhos.

E não ia achar mais mesmo. Elas compunham a Coleção Morada Brasileira 2016, cuja fabricante, a Pointer, retirara do mercado no começo de  2017, quando foi lançada uma nova coleção de cerâmicas, a Morada Brasileira – Cotidiano (estas  lisas e sem estampas, ao contrário das anteriores). A Pointer funciona em Alagoas, e pertence ao Portobello Grupo. A fábrica fica no município de Marechal Deodoro (AL), a quem o artesão apelou, por telefone, depois de procurar em vão no Recife pelas pedras que tanto gostava.

“Quando decidi produzir as caixinhas, procurei muitas pedras, mas me decidi pelas da Pointer, porque tem desenho, acabamento, são muito bem trabalhadas e ficam com assentamento perfeito”, diz o Adilson. Ele aprendeu a trabalhar com esse tipo de revestimento com um tio, em Santa Catarina, quando ambos trabalhavam na construção civil. Sensibilizada com o problema de Adilson, a Pointer observou que ainda tinha pedras da antiga linha no estoque. E decidiu fazer uma doação para o artesão, que conseguiu finalizar as peças que produz, depois de receber a doação na sua oficina, na comunidade do Bode, bairro do Pina, Zona Sul do Recife.

Chegou a expô-las na 18ª Fenearte, a maior feira de artesanato da América Latina realizada no último mês de julho, no Centro de Convenções de Pernambuco. E ganha a vida vendendo-as em feirinhas.  “Há muitas histórias, quando boto minhas  peças à venda”, afirma. “As pessoas chegam nas feirinhas, e dizem ‘poxa, eu coloquei essa pedra na parede da minha cozinha, no muro lá de casa, como ficou bacana esse trabalho, como é diferente’. A arte e a diferença que ela propõe acabam fazendo o público levar uma caixinha para compor a decoração da casa”, comemora  o artesão. “Buscamos em nosso estoque e resolvemos doar os produtos, para que ele continue fabricando. Estamos muito felizes em ter ajudado o Adilson, que representa tão bem a realidade dos artesãos brasileiros, muitas vezes sem condições mínimas de trabalho, mas que seguem defendendo sua arte”, afirmou Paula Mol, coordenadora de Marketing da Pointer. Adilson e a Pointer só não informaram o que ocorrerá, quando acabar o seu estoque.

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Texto:  Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação

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