A briga por cirurgia reparadora, para quem ficou com caco de vidro no nariz

Não é fácil. É como diz o velho ditado, depois do coice, a queda. A estudante Kedyja Cibelly Borges dos Santos, 20 anos, sofreu um terrível acidente em ônibus em que viajava, em novembro do ano passado, quando vinha de Picos (Piauí) para Salgueiro (Pernambuco), onde reside. O impacto lhe deixou duras sequelas. Ela sofreu afundamento de parte do rosto, e teve que conviver por sete meses com partículas de asfalto encravadas na epiderme e também com um caco de vidro no nariz, que lhe dificultava a respiração.  Ela passou por cirurgia, e agora luta na justiça para que a empresa transportadora custeie tratamento que reduza ou apague as cicatrizes de sua face….

Nesta semana,  felizmente, ela teve uma boa notícia. É que a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) decidiu, por unanimidade, que a empresa de transporte Viação Progresso tem obrigação de bancar o tratamento de saúde de Kedydja Cibelly Borges dos Santos. A decisão representa uma vitória para a estudante de Engenharia de Produção da Univasf, localizada em Salgueiro, a 518 quilômetros do Recife, já que ela vem lutando para recuperar sua fisionomia anterior. A universitária precisa realizar um novo procedimento cirúrgico para fazer novos enxertos de gordura na testa, no nariz e na sobrancelha. “A decisão do Tribunal de Justiça consolidou a obrigação que a empresa tem de indenizar a Kedydja com o custeio do seu tratamento”, analisa o advogado de defesa da estudante, Eduardo Lemos Barbosa. Antes, ela já havia apelado para a Justiça para que a empresa  bancasse despesas como a retirada do caco de vidro do nariz.

Estudante apelou à Justiça, para que transportadora custeasse tratamento devido a acidente. Acima, como era antes.

O acidente que envolveu a estudante ocorreu em 16 de novembro de 2020, em Ouricuri. O ônibus capotou , ela se desprendeu do cinto de segurança, seu rosto foi arrastado no chão e ficou debaixo do veículo por cerca de dez minutos, o que provocou danos em sua face. Por conta dos problemas gerados pelo acidente, ela passou a ter depressão e precisa continuar, também, com acompanhamento psiquiátrico. A cirurgia deve ser realizada em São Paulo.  A decisão da 6ª Câmara Cível do TJPE ratifica a liminar do desembargador Fernando Antônio Araújo Martins, da 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça, que em maio passado concedeu decisão em caráter provisório ao recurso interposto pelo advogado da vítima para que a estudante iniciasse tratamento através de consultas para avaliação médica e depois concedeu autorização para o primeiro procedimento cirúrgico, realizado em junho.

“O Tribunal reconheceu o direito da vítima, como já havia sido reconhecido pelo desembargador-relator do caso, fato que o juiz de primeiro grau em Salgueiro não havia reconhecido”, destaca o advogado Eduardo Barbosa. Ele recorreu da decisão do juiz da primeira instância em abril, quando o pedido da estudante de fazer cirurgias reparadoras para corrigir os danos causados pelo acidente havia sido negado. E adiantou que, além do seguimento do processo na esfera cível, o caso se desdobrará na esfera criminal para que os responsáveis pela empresa de ônibus respondam por omissão de socorro à vítima, desde o dia do acidente.  Ele se associou ao criminalista Ricardo Breier para cobrar providências à Delegacia do município de Orocó, no Sertão de Pernambuco, pedindo diligências para instaurar um inquérito policial com o objetivo de apurar as causas do acidente e identificar os culpados. Orocó é o local onde ocorreu o sinistro.

Mergulhada num quadro de depressão desde que sofreu o acidente, Kedydja Cibelle desde abril está com acompanhamento psiquiátrico e revela que a empresa não teve empatia com o seu caso, sendo omissa desde o primeiro dia. “As coisas só mudaram depois que o meu advogado começou atuar no caso a partir de março”, ressalta ela, dizendo que nunca foi procurada pela transportadora. “Será que se a filha de um dos sócios da empresa estivesse enfrentando o que eu estou passando até agora, eles aprenderiam a ser solidários, empáticos”? A nova decisão do TJPE lhe trouxe a esperança de remover cicatrizes do rosto. “Espero retornar para São Paulo no próximo mês para fazer novos procedimentos e que eu não corra mais o risco de ter meu tratamento interrompido”, diz. Ela já passou por cirurgia de rinoplastia, correção de cicatriz e enxerto de gordura na face, procedimento que durou sete horas.  “Consegui me olhar de novo no espelho depois da retirada dos pontos”, conta ela, mostrando o caco de vidro que foi retirado durante a rinoplastia.

Ela estava em Picos, onde residem os pais, e decidiu retornar antes do programado a Salgueiro, po rmedo da Covid-19:  “Tinha muitos casos de Covid lá e fiquei com muito medo de morrer, porque perdi minha vó para esse vírus”, conta ela. A menos de duas horas de chegar em casa, o ônibus virou na estrada do município pernambucano de Orocó e todos os passageiros sofreram ferimentos, mas a situação de Kedydja foi a mais grave. Ela revela que o cinto de segurança não a conteve no impacto e foi arredada, caindo com o rosto no chão. “Fui jogada embaixo do ônibus e  fui arrastada. Gritava de dor. Um despero”, recorda ela, informando que outras pessoas conseguiram suspender o ônibus para ela sair, quando foi socorrida por um advogado até o hospital de Ouricuri.

Em março, como não conseguia um acordo com a empresa responsável pelo ônibus onde estava que capotou durante o acidente, mudou o assessoramento jurídico e ganhou em abril o direito de ter um acompanhamento psiquiátrico. Em maio, conquistou na Justiça o direito de fazer consultas em São Paulo e de fazer depois as cirurgias reparatórias de nariz, sobrancelha e face. A empresa teve que arcar com as despesas. Mas segundo o advogado, até o ingresso da ação, a empresa não havia prestado apoio algum à estudante.  A estudante é filha de uma pensionista e de um motorista. Seu pai está desempregado há três anos e que ambos não têm condições de bancar o tratamento. Em 2020, após a morte da sua avó em Picos, em julho do ano passado, seus pais migraram para Petrolina, em busca de oportunidades. Não conseguiram e acabaram voltando temporariamente para Picos no período das eleições para trabalhar para um amigo que era candidato.  Para o advogado, a estudante está pedindo o que lhe é de direito: reparação do dano sofrido.  “Ela (Kedyja) não está pedindo dinheiro emprestado, ela teve um dano gravíssimo, porque comprou uma passagem com eles e é obrigação deles indenizar o consumidor”.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação

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