Cientistas contra carnaval: “Europa é prévia do que pode acontecer no Brasil”

Tem muita gente que já está se  programando. Fazendo planos para o carnaval, a maior festa popular do Recife. No Brasil, o Rio de Janeiro diz que vai ter desfile de escolas de samba. Em São Paulo, mais de 60 municípios já cancelaram as festas, temendo que a pandemia volte a se alastrar. Eu adoro carnaval. E sou fiel ao da minha cidade, que considero como um dos melhores do mundo: democrático, organizado, participativo,culturalmente diversificado. Mas praticamente já decidi que em 2022, ficarei em casa. Se na praia me incomodam as pessoas que se aproximam sem máscara, imaginem em um bloco imenso, com um milhão de pessoas nas ruas. Todo mundo movido a álcool, suado e esbaforido, a multidão suspirando de cansaço. E o vírus… circulando no ar.

É verdade que além de uma festa popular, o carnaval é, também, um acontecimento econômico. Muita gente lucra. De blocos que conseguem patrocínios milionários à costureira que faz as fantasias, dos cantores que se apresentam nos palcos aos músicos e técnicos de som, das fábricas de bebidas ao ambulante que vai às ruas vendê-las.  A cadeia de hotéis, os restaurantes, os cofres públicos, o turismo, todo mundo sai ganhando. Mas em clima de pandemia… Se depender da posição dos cientistas, o carnaval 2022 não ocorreria. Nas redes sociais, também, já começaram a circular recomendações como as da foto, “Diga não ao carnaval”.

Para os cientistas, não há como seguir normas sanitárias restritivas em festas como o carnaval e Covid pode se alastrar.

A Academia Pernambucana de Ciências e a Academia Pernambucana de Medicina divulgaram nota hoje alertando que “a probabilidade de contágio aumenta exponencialmente com o tamanho de qualquer aglomeração e não existe a menor possibilidade de festas de réveillon e, principalmente de carnaval,  evento grandioso, ocorrerem respeitando as medidas de segurança”. E advertem: “Nestas circunstâncias, a realização das festividades de final de ano e do carnaval trazem a possibilidade concreta de gerar um novo surto da pandemia, motivo pelo qual alertamos às autoridades públicas que assumam a responsabilidade de preservara saúde e a vida da população, continuando com a vacinação para todos, mantendo o distanciamento social e o uso contínuo de máscaras que são condições essenciais para o controle e superação da doença Covid-19”.

No comunicado, divulgado nesta semana eles citam o caso da Europa, onde após o relaxamento das medidas de segurança sanitária, a pandemia voltou a atacar. “Nos últimos dias, a Europa vem tendo uma média diária de 250 a 300 mil novos casos da Covid-19 e de 3500 a 4000 óbitos por dia, decorrentes da doença”, lembram. “Com efeito, a média móvel dos últimos sete dias (MM-7) de casos confirmados no Reino Unido aumentou onze vezes desde 1 de junho até 21/11/2021. Na Alemanha, o aumento foi até maior atingindo 17 vezes”, ratificam.  “Vários países, como Reino Unido, Alemanha, França, Áustria, Holanda e Dinamarca estão retomando o uso de fortes  restrições sanitárias”, lembram. E afirmam que tal realidade decorre do relaxamento de medidas de segurança sanitária.

E também da reduzida vacinação em alguns países, como é o caso da Rússia. E advertem:

“O que está acontecendo na Europa é uma  prévia do que poderá acontecer no Brasil, em 2022, visto que o risco atual no Brasil é superior, por exemplo, ao da Espanha, quando iniciou o relaxamento das  medidas restritivas com taxa de vacinação superior à  nossa. Se ocorrerem aglomerações de final de ano e de carnaval,  com probabilidade muito elevada poderemos repetir em 2022 lockdowns restrito ou parciais com consequências nefastas para a nossa já combalida economia. Está mais do que provado cientificamente que mesmo sendo as vacinas o método mais efetivo de controle de pandemias, outras medidas são necessárias, pois países que vacinaram altas proporções de suas populações, mas que relaxaram as medidas de segurança sanitária, viram surgir novas ondas de pandemia com muita agressividade.

Pelo sim pelo não, já tem gente se preparando,comprando fantasia. E há aqueles que dizem que têm medo de morrer, mas que também querem viver (curtindo a festa). A maior agremiação carnavalesca do Recife  divulgou nesta semana o tema do desfile, informou que os carros alegóricos estão prontos e orquestras e trio elétricos contratados. Segundo a Diretoria de O Galo da Madrugada, ninguém disse que vai ter carnaval, mas também nenhuma autoridade disse que não vai ter. Em Olinda, o Homem da Meia Noite também já está pronto para ir às ruas, caso a festa seja liberada. Em todo Pernambuco, a expectativa é muito grande. O próprio Prefeito do Recife, João Campos (PSB) afirmou que se liberada a festa, o Recife terá “o maior carnaval de sua história”. Mas até esse momento, o Palácio do Campo das Princesas não definiu se vai haver a festa.

No nosso estado, os números da pandemia já foram piores. Mas não dá para relaxar ainda. A Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) registrou, nesta quinta-feira (25/11), 327 casos da Covid-19. Entre os confirmados hoje, 19 (6%) são casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e 308 (94%) são leves. Agora, Pernambuco totaliza 638.595 casos confirmados da doença, sendo 54.950 graves e 583.645 leves. Também estão sendo contabilizados nove óbitos, ocorridos entre 11/06/2020 e 24/11/2021. Com isso, o Estado totaliza 20.212 mortes pela Covid-19. 

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Redes sociais e PCR / Acervo #OxeRecife

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