Verticalização: Porto de Galinhas pode virar uma Boa Viagem? Sim ou não?

Não são poucas as cidades no mundo que limitam o gabarito de edifícios à beira-mar ou próximos às praias. Porém em alguns locais – como é o caso do Recife – a verticalização domina as praias do Pina e de Boa Viagem e os as “torres” surgem maiores a cada dia. A pressão da especulação imobiliária sobre quem mora em casa ou em prédio de dois ou três andares é tão grande,  que virou até tema de filme, como foi o caso de Aquarius, do diretor pernambucano Kleber Mendonça.

Nele, uma jornalista aposentada, que morou por toda a vida em um prédio à beira-mar, come o pão que o diabo amassou para deixar o pequeno edifício de três andares, em cujo terreno uma construtora quer implantar mais um espigão. No Nordeste, há praias que limitam o gabarito. Porém parece que na orla de Boa Viagem o céu é o limite. Recentemente, publicação de uma imobiliária (Alliance) de João Pessoa citava o casso da nossa principal praia como “um paredão de edifícios” ou, “como chamam os urbanistas, o paredão da vergonha”. A mesma publicação lembrava que algumas praias recifenses são evitadas pelos banhistas “em determinadas horas do dia” por causa “das longas sombras lançadas sobre a faixa de areia”.

E mostrava o exemplo da praia de Cabo Branco,  em João Pessoa, onde o limite imposto à altura dos prédios virou um aliado para combater massas de calor, assim como levar o bairro a ser apontado como um com os melhores níveis de qualidade de vida do país. Em Pernambuco, como se não bastasse a orla do Recife, a preocupação agora se volta para Porto de Galinhas, o balneário mais famoso do estado e muito disputado por turistas do Brasil e do mundo (20 por cento dos seus visitantes são estrangeiros). Como se já não bastasse a insuficiência de serviços básicos, como saneamento. Pois recentemente a própria Prefeitura foi punida por despejo de esgoto na areia da praia. Agora, é a verticalização que começa a preocupar as autoridades.

MPPE teme que Porto de Galinhas se transforme em uma Boa Viagem (foto), e tenta impedir a verticalização da praia .

Antes que o mal possa fincar suas raízes de vez, o Ministério Público de Pernambuco decidiu fazer uma audiência pública para discutir o problema e os riscos que ele acarreta. O encontro está marcado para 15 de dezembro, a partir das 9h, na Câmara Municipal de Ipojuca, município localizado na Região Metropolitana, a 57 quilômetros do Recife. A iniciativa é da 3ª Promotoria da Justiça Cível de Ipojuca, que tem também atribuições em defesa do meio ambiente, da habitação e do urbanismo.  Segundo o MPPE, no encontro serão pedidas explicações à Prefeitura sobre “critérios” para concessão de licenças.

De acordo como MPPE, a verticalização de Porto de Galinhas implicará  impactos ambientais, paisagísticos, habitacionais e até na mobilidade. O que, aliás, não é nenhuma surpresa. Conforme, ainda, o MPPE há imóveis “em situação completamente irregular” naquele que é o mais famoso balneário do litoral pernambucano.

Já tramita procedimento na Promotoria de Justiça em Ipojuca para acompanhar a política de ordenação do espaço em Porto de Galinhas, que recebe mais de 1,2 milhão de turistas por ano.  Estão sendo convidados para a reunião: Prefeitura, Secretarias Meio Ambiente; Controle Urbano; Turismo), a autarquia municipal de trânsito, poder legislativo, organizações sociais e população em geral. É preciso mesmo que Ipojuca crie um arcabouço legal que impeça que Porto transforme a sua orla em uma faixa de espigões. Aí sim, teremos um paredão da vergonha a mais e um paraíso a menos  no nosso estado.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos:  Letícia Lins e AHPG (Acervo #OxeRecife)

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