Praça da Convenção: O duelo da Santa com o guerreiro, em Beberibe

Olhem bem a foto acima. Ela mostra a imagem de Nossa Senhora da Conceição, no topo do Santuário dedicado à Santa, localizado no mais famoso morro do Recife. Imaginem se ao lado da  estátua, alguém inventa de colocar uma outra em referência a um fato histórico, um político,um guerreiro ou mesmo a um deus de outra religião. Você concordaria? E se o contrário ocorresse, o que você diria, ao ver a imagem de  Nossa Senhora no meio de uma praça, onde já existe um monumento dedicado a um fato importante de nossa história? Nada contra a Santa, claro, que tem uma multidão de devotos e devotas. Eu, inclusive. Mas cada espaço tem a sua história, a sua arquitetura, o seu significado.

Vejam a situação reclamada por um leitor do #OxeRecife, que preferiu não se identificar. Ele esteve recentemente na Praça da Convenção, no bairro de Beberibe, onde há um monumento de oito metros de altura, de autoria do escultor Abelardo da Hora (1924-2014). O monumento foi fixado na década de 1970, para assinalar o sesquicentenário da Convenção de Beberibe. E também para marcar o espaço onde eram sediadas as reuniões separatistas daquele movimento rebelde, que converteu Pernambuco na primeira província brasileira a se declarar independente de Portugal. A rebelião foi tão forte, que chegou a destituir o então governador português Luís do Rego Barros, em 1821, e a expulsar o exército português da então província.

Desabafa o leitor:

“Essas fotos reproduzem uma questão que me intriga muito. É a Praça da Convenção, em Beberibe. A Praça leva esse nome pela Convenção que  ali aconteceu, em 1821, que iniciou a guerra de libertação  do Brasil de Portugal. A partir dessa Convenção, foram retiradas as tropas portuguesas do território pernambucano. Ou seja,  essa praça é histórica. Tanto é que  existe um monumento de Abelardo da Hora que faz referência  a essa Convenção. Sabendo de tudo isso, o incômodo é o seguinte: a Paróquia da Igreja Católica em Beberibe, dedicada a Nossa Senhora da Conceição,  colocou uma Santa gigante no meio da praça como se fosse dona, não respeitando  a história do bairro nem a da Convenção de Beberibe

Para o recifense, que apresentou recentemente uma tese de doutorado na UFPE, a omissão das autoridades locais quanto ao fato não se justifica. E desabafa:

Nada contra qualquer tipo de manifestação religiosa. Mas  a imagem Santa, como se vê na foto, não dialoga com a praça nem com a escultura de Abelardo da Hora. Tu podes fazer um registro no Blog #OxeRecife? Infelizmente os jornais locais não fazem nada.

Ele tem razão. Pois por maior que seja a nossa fé, cada monumento tem o seu lugar. Cada santo no seu nicho!  Imaginem se alguém inventa de fazer uma estátua gigante de Gervásio Pires e coloca ao lado da imagem de Nossa Senhora, no Morro da Conceição. Como se sabe, foi ele que  assumiu o governo, com a destituição do governador português Luís do Rego Barros, em 1821. Barros foi algoz da Revolução Pernambucana e não merecia estátua em lugar nenhum. Gervásio Pires até que sim. Mas jamais ao lado de Nossa Senhora da Conceição, no Morro da Conceição, por exemplo.

É como diz o leitor: o monumento histórico realmente não dialoga com o religioso. Nada contra a religião.  Pelo contrário. Todo mundo sabe da devoção dos pernambucanos à Santa. Mas ele reclama:  “Aquilo é um absurdo, só está daquele jeito porque é no subúrbio”. E conclui: “Se fosse em algum bairro mais nobre, não estaria assim”. Nem sempre, caro leitor. Cuidar das praças e parques não tem sido o forte das gestões municipais. Estão aí monumentos pilhados, praças semi destruídas e murais e parques de esculturas (como o Francisco Brennand, em frente ao Marco Zero), que não nos deixam mentir. Além disso, muitas de nossas pontes, jardins históricos, praças, ruas e até edifícios vêm sofrendo processo constante de descaracterização. Portanto, o caso Beberibe não  surpreende.

O #OxeRecife enviou  por e-mail perguntas sobre o assunto à Paróquia da Conceição, em Beberibe, onde a devoção à Santa data do século 18. Ou seja, também tem história. Só que são duas histórias diferentes: a política e revolucionária, e a religiosa. Também indagou sobre o assunto à Prefeitura, via Emlurb. Até o fechamento não haviam chegado  as respostas.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Andrea Rego Barros (Acervo #OxeRecife) e  fotos do leitor

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