Homenagem de Bolsonaro a ele mesmo: “Aberração” e “promoção indevida”

Haja besteira, picuinha, negação da ciência, fake news. É tanta politicagem distante das  reais demandas da população que, vez por outra, os cientistas têm sido obrigados a se posicionar contra as atitudes do governo federal, lideradas pelo Presidente Jair Bolsonaro. Nem mesmo a entrega de comendas da Ordem Nacional do Mérito Científico escapa de mesquinharias que tanto caracterizam as atitudes do capitão.

Pois não é que ele assinou decreto tornando sem efeito a admissão  de dois pesquisadores que haviam feito trabalhos científicos com os quais ele não concorda..  Será Bozó PHD em alguma coisa? As duas publicações dos cientistas excluídos da premiação mostravam dois assuntos delicados para o “Grão-Mestre” da ciência. A primeira apontava a ineficácia da cloroquina na pandemia. A segunda não era nada mais nada menos do que uma cartilha para homens trans (em um país com um governo marcado pela homofobia, transfobia e outras posições incompatíveis com o século 21 e os direitos humanos).  Com razão, pesquisadores e cientistas não só de Pernambuco, mas do Brasil, acusam o capitão de “autopromoção indevida e arrogante”, por condecorar a si próprio. E também o denunciam por misturar “o joio ao trigo” e o criticam por mais essa “aberração”. Também reprovam a exclusão dos dois pesquisadores da lista de indicados. Ambos são conhecidos pela seriedade no trabalho, o que não conta muito para o Bozó e seus asseclas. Os nomes dos dois “excluídos” estão na carta divulgada pela Associação Pernambucana de Ciência.

Cientistas repudiam as posições de Bolsonaro ao perseguir cientistas justamente pela seriedade no trabalho.

Vejam a nota distribuída pela APC, que é presidida por Anísio Brasileiro e que já está nas redes sociais. A nota faz um histórico da Ordem Nacional do Mérito Científico. Por esse motivo, o #OxeRecife faz questão de publicá-la na íntegra. A nota mostra como os mandatários da Nação pretendem se apropriar de um título que deveria ser de reconhecimento aos verdadeiros pesquisadores e não a políticos de plantão, que não têm compromisso com a ciência, a cultura nem a educação.

“A Ordem Nacional do Mérito Científico foi criada pelo Presidente Fernando Collor por meio do decreto 722, de 16 de março de 1992, tendo por finalidade premiar personalidades nacionais e estrangeiras que se distinguiram por suas relevantes contribuições prestadas à Ciência e à Tecnologia. Nesse decreto, está definido no artigo 2º, parágrafo primeiro: “O Presidente da República será o Grão-Mestre da Ordem e o Ministro da Ciência e Tecnologia, o Chanceler”. Certamente o Presidente Collor queria receber a comenda, o que seria inadmissível e que se repete agora. Em 2019, o Presidente Jair Bolsonaro por meio do Decreto 10339, de 03/10/2019 promove alterações na Ordem do Mérito Nacional, dando-lhe mais poderes, mas manteve o artigo 1º que lhe concede a comenda do Grão-Mestre e ao Ministro da Ciência e Tecnologia, a de Chanceler. Autopromoção indevida e arrogante. 

Existe um Conselho da Ordem  Nacional do Mérito Científico que é composto por representantes do MCTI indicados pelo governo, da Academia Brasileira de Ciências (ABC),  e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) se baseando no Decreto 10.039, de 3/10/2019, artigo 20. “Para o ingresso na Ordem Nacional do Mérito Científico é fundamental que o candidato tenha prestado serviços relevantes à ciência, à tecnologia e inovação e se destaque dentre seus pares por suas qualidades intelectuais, acadêmicas e  morais”, escolhem cientistas para serem agraciados com a comenda nos diversas áreas do conhecimento científico.

No dia 3 de novembro, foi assinado pelo Presidente o decreto que lhe concede a comenda de Grão-Mestre, para o Ministro da Ciência e Tecnologia e Inovação, o grau de chanceler. E, por incrível que pareça, nomeou o maior inimigo brasileiro da ciência da atualidade, o Ministro Paulo Guedes para fazer parte do Conselho da Ordem Nacional do Mérito Científico. Outros nomes  de cientistas foram indicados por membros da ABC e SBPC por suas qualidades acadêmicas, morais para receberem a comenda. Depois de talvez o pior ano de todos os tempos para a Educação, Ciência e Tecnologia, é inadmissível que o Presidente e seus ministros recebam homenagens junto com cientistas produtores de conhecimento e que seguramente merecem receber a Ordem Nacional do Mérito Científico. É misturar o joio ao trigo.

Para completar o absurdo e a imoralidade, ontem, 05 de novembro, o Presidente publicou decreto tornando sem efeito  a admissão na Ordem Nacional do Mérito Científico dos pesquisadores Marcos Vinícius Guimarães de Lacerda que foi um dos primeiros a divulgar trabalho científico provando a ineficiência da coloroquina defendida pelo presidente  e de Adele Scwartz Benzaken, médica da Fiocruz que no início do ano foi exonerada da diretoria  do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST,do HIV/Aids e das Hepatites Virais por ter publicada uma cartilha  destinada a homens trans. Outro golpe contra a ciência e a ABC e a SBPC, que indicaram tais nomes.

A Academia Pernambucana de Ciência se junta a todos que protestam contra esta aberração e ao mesmo tempo parabeniza os cientistas – dentre eles o Professor Anderson Stevens Leônidas Gomes, membro da APC e professor titular da Ufpe – que realmente merecem a comenda, aqueles escolhidos pela ABC e SBPC, que não devem se misturar com os verdadeiros inimigos do desenvolvimento educacional, científico e tecnológico do Brasil”. 

(Anderson a quem a nota se refere, é um dos professores da Ufpe que foram citados  no relatório do Comitê Nobel de Física da Academia Real das Ciências da Suécia deste ano. O documento, que menciona trabalhos considerados relevantes no meio científico, justifica a escolha dos premiados com o Nobel de Física que, em 2021, foram os pesquisadores Giorgio Parisi, Klaus Hasselmann e Syukuro Manabe, por suas contribuições seminais para o entendimento de sistemas complexos.

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Texto: Letícia Lins/ #OxeRecife
Fotos: Acervo #OxeRecife

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