Lixo no mar: Litoral de Pernambuco tem 624 pontos de “fluxo de resíduos”

Nesta semana, mostramos aqui no #OxeRecife, o Rio Capibaribe sufocado pelo excesso de detritos sólidos. Embora sem números, nem do volume nem da coleta. Pois desconhecemos estudos que façam o levantamento da carga de resíduos sólidos presentes no rio. E também a Emlurb se recusou a nos oferecer o total coletado por ano, em trabalhos mensais de limpeza que são realizados às suas margens em vários bairros do Recife. E, como se sabe, os detritos jogados ao rio, claro, vão dar no mar.

Uma pesquisa que acaba de ser efetuada em quinze municípios litorâneos de Pernambuco indicou que todo o lixo encontrado no litoral pernambucano vem do continente, a maior parte formada por plásticos, fato que não chega a ser surpresa para o leigo, pois é fácil identificar a presença desse grande vilão do século 21 nos nossos canais, lagoas, rios e mesmo no mar. O estudo descobriu, ainda 624 pontos de refluxo de resíduos que “abastecem” de lixo o nosso Litoral. As informações constam de levantamento  efetuado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade de (Semas/PE) e pelo Projeto TerraMar/Giz (uma cooperação entre os Ministérios do Meio Ambiente da Alemanha e do Brasil).

Lixo nos manguezais de Pernambuco., que ficam em áreas onde há mistura de água doce e salgada, próximas ao mar.

A pesquisa foi realizada em 15 municípios tanto do Litoral Norte quanto do Litoral Sul do Estado:  Goiana, Itamaracá, Igarassu, Itapissuma, Paulista, Olinda, Recife, Jaboatão dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca, Sirinhaém, Tamandaré, Barreiros, São José da Coroa Grande, Rio Formoso. Para nós, que fazemos o #OxeRecife, ela mostra, também, que é preciso redobrar a vigilância, os cuidados e  a educação ambiental durante o verão, quando as praias ficam cheias de banhistas e turistas, lotando hotéis e casas de veraneio. Vejam só um exemplo: Em Tamandaré – a 116 quilômetros do Recife –  foi detectado que em janeiro, a quantidade de lixo na praia é 250 por cento maior do que nos outros meses. O primeiro mês do ano costuma ser aquele em que as praias ficam mais lotadas. O estudo faz parte da etapa de diagnóstico para a elaboração do Plano de Ação de Combate ao Lixo no Mar de Pernambuco (PACLM-PE),e foi discutido em reunião virtual recente. Também foram apontadas e debatidas com mais de 50 gestores públicos municipais e estaduais iniciativas para evitar a chegada desse material ao mar.

A vegetação de restinga de nossas praias também sofre com os descartes feitos pela população pernambucana.

Entre elas as situações discutidas, estão a acumulação de material nas praias, no leito e nas margens dos cursos d’água (acondicionados ou não); ocupações irregulares; retenção de material em mangues; resíduos ligados à atividade pesqueira; e mais. A pesquisa relata que todos os municípios analisados já destinam seus resíduos para aterros sanitários e a existência de intervenções positivas, como as ecobarreiras em canais, que – pelo que se vê – ainda não são suficientes para evitar o problema. “É preciso melhorar a gestão dos resíduos nos municípios e, para isso, temos que dispor desses dados que vão nos ajudar a compor um conjunto de ações emergenciais, de médio e longo prazos para o combate ao lixo no mar em Pernambuco, e de forma integrada e participativa com os municípios”, afirma Bertrand Alencar, superintendente de Meio Ambiente da Semas.

O estudo também evidenciou os tipos de resíduos mais encontrados. O posto de grande vilão dos oceanos continua com os plásticos flutuantes (garrafas, sacos de lixo, etc). Mas, a lista segue: máscaras usadas na prevenção da Covid-19, apetrechos de pesca (descartados ou perdidos), cascas de mariscos, embalagens descartáveis de marmita (composta por isopor e/ou outros materiais), sacos de areia para contenção do mar, embalagens de óleo de motor, tinta, solvente e resíduos volumosos (móveis, pneus e entulhos).  Entre as ações previstas para limpar as praias encontram-se: reforço na limpeza regular das praias; mais ecobarreiras; mutirões de limpeza, uso da casca de marisco na construção civil; incentivo à recuperação de materiais recicláveis; definição de indicadores; implantação de coletas especiais, entre outros. Destaque ainda para a oportunidade de implantar o controle e/ou proibição de plásticos descartáveis e embalagens de uso único. E ainda o maior estreitamento das relações com o setor de turismo . E a educação ambiental da população, onde é que fica? Sem ela, todo esforço de limpeza será perdido, pois o ciclo vicioso permanecerá sem atacar a raiz disso tudo.

O estudo e as soluções propostas ainda serão debatidas com representantes da sociedade civil organizada que atua no litoral de Pernambuco e da iniciativa privada, em dois webinários. Os eventos são preparatórios para outros encontros com participações da sociedade civil. Depois disso, será elaborada uma proposta do Plano Estadual de Ação de Combate ao Lixo no Mar, a ser consolidada em oficina participativa e audiência pública, envolvendo todos os segmentos do governo e da sociedade. Esse documento, que deve ficar pronto ainda este ano, conterá informações georreferenciadas da origem do problema, além das propostas de ações integradas construídas de forma participativa entre estado, municípios, sociedade civil, população local, além de universidades e institutos de pesquisa voltados à conservação marinha.

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Texto: Letícia Lins/ #OxeRecife
Fotos: Projeto Terra Mar / Agência Giz

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