A “família” de Francisca está pronta para o Réveillon: roupas novas e brancas

Uma figura, Dona Maria Francisca de Almeida, sobre a qual  já falamos aqui no #OxeRecife. Natural de Quipapá, cidade localizada a 188 quilômetros do Recife, ela encontrou um jeito de se distrair, para driblar tempo que, para a idosa, passa lentamente pela sua cadeira de balanço.  Aos 94 anos, chegava a preocupar os filhos com o excesso de sono. Dormia o dia quase todo. Até que, estimulada pela família, arranjou uma atividade que virou mania, terapia e passatempo: fazer roupinhas de bonecas.

Francisca tem cinco filhos, seis netos e dois bisnetos. Mas as bonecas viraram uma segunda “família”. E ela cuida das “meninas” e “meninos” com o maior carinho, adornando seus corpinhos com sapatos de crochê, roupinhas enfeitadas com rendas e fitinhas. Confecciona até bijuterias, como pulseiras e colares para as “garotinhas”. Tudo com o maior bom gosto do mundo. Ao todo, são 29 bonecas, das quais dez encontram-se no Recife, pois sem elas Francisca fica triste. A “família” virou uma grande distração e mais uma razão para viver. Francisca nem quer mais dormir tanto de dia como ocorria antes. Porque agora o tempo  ficou mais curto e ela precisa dele para confeccionar as roupinhas.  Nesses tempos de pandemia – em que nem jovens nem idosos devem facilitar nas ruas – Francisca está recolhida. Costurando, bordando, tricotando, vendo o tempo passar com mais leveza.

Confeccionar roupas para sua “família” de bonecas virou principal distração de Francisca, 94: Branco para o réveillon.

Pois não é que ela preparou a “turma” que está no Recife para o réveillon?  A dois dias da virada do ano, Iza, Ceça, Ju, Diana, Vera, Ângela e Kaká estão prontas para entrar em 2021 de branco, a cor da paz. Ganharam vestidos de cambraia bordada, seda, renda e popeline. Mas não é só isso não. As roupinhas são adornadas com rendas, bicos, fitinhas. Os sapatinhos, impecáveis, foram confeccionados em crochê. Os nomes das “meninas” e “meninos” é a própria Francisca que escolhe, inspirando-se em nomes de filhos, netos ou amigos que lhe presentearam com  bonecas.

“Iza, ela recebeu de Isabel; Ceça, fui eu que dei; Ju foi  um presente de Julianelly; Diana ganhou esse nome, devido ao fato de ter sido um presente de um casal  (Diniz e Ana); Vera foi presenteada por Vera; Ângela veio de Antônio e Rosângela; e Kaká foi Karla quem deu”, afirma Ceça Almeida, filha de Francisca, referindo-se a familiares e amigos da idosa.

“E tem gente que nem está pronta ainda”, comenta Ana Maria Almeida,  referindo-se a três bonecas que ficaram na casa dela. Ana, filha de Francisca,  é coordenadora do Grupo Andarapé, que promove sempre trilhas e passeios pelo Recife, interior e até para outras regiões. No carnaval, por exemplo, ela vai levar um grupo para o Vale do Catimbau, em Pernambuco.. E está organizando uma segunda viagem ao Jalapão (Tocantins), para 2021.  Quanto às três bonecas que ainda não ganharam roupa nova para o réveillon, serão entregues hoje a Francisca. Assim, a família de dez estará pronta, toda de branco  para a virada de 2020.  O que vai deixar a matriarca dos Almeidas feliz da vida.

Muita paz para Dona Francisca, para filhos, netos, bisnetos e bonecos!  Veja, em link abaixo, como os filhos de Francisca conseguiram arranjar uma forma de movimentar os antes ociosos dias da idosa, que quase só queria dormir o tempo todo. E agora, mata o tempo, cuidando de sua “numerosa” família. Bem que dava para montar uma lojinha de roupas de bonecas…  Quando eu era criança, gostaria muito de achar roupinhas prontas para bonecas. Era uma diversão trocá-las. Elas hoje até que existem, mas normalmente se limitam ao guarda-roupa das Barbies da vida.  Então, os looks criados por Dona Francisca fariam a festa entre a criançada que ainda prefere bonecas com cara de bebês e não de manequins, como ocorre com o ícone da indústria de brinquedos que completou  60 anos em 2020. Aliás, as roupas da Barbie  lembram mais as usadas nas passarelas dos desfiles de moda, enquanto as criadas por Dona Francisca conduzem ao cotidiano da vida  pacata do interior e ao que sobra de lúdico no frenético movimento da cidade grande.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Álbum de família / Cortesia

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