Parque das Esculturas e indignação: “Esse post é um pedido de socorro”

Pegou mal, mas muito mal mesmo, o roubo das peças gigantescas do Parque de Esculturas Francisco Brennand, em frente ao Marco Zero, e que vem a ser uma das principais atrações turísticas do Recife. Ou melhor, vinha. Porque o conjunto vive no breu e já está sem grande parte das 90 peças doadas pelo artista. Como era de se esperar, a população ficou indignada com o vandalismo e com o assalto ao patrimônio público.  Mas a reação das autoridades… Sinceramente, deixa muito a desejar. Primeiro, a omissão, para a situação chegar a esse ponto. Segundo, a chocante indiferença com aquele que é, não só o maior conjunto de obras de arte ao ar livre do Centro como também uma das atrações turísticas mais visitadas. E, mais, com a assinatura de ninguém menos que Brennand (1927-2019). Ao longo de sua existência, o artista pernambucano construiu uma obra monumental, que inclui a Oficina Francisco Brennand (na Várzea) e o Parque das Esculturas, no Porto do Recife. O roubo de uma peça sua representa, para o Recife, o que seria  para Barcelona (Espanha), o furto de uma peça gigantesca  da Igreja Sagrada Família, de Antoni Gaudi.

Nas redes sociais do #OxeRecife, inclusive via WhatsApp, o que não faltou foi comentário lamentado o fato. “O Parque das Esculturas, um lugar turístico, lindo, hoje um lixo. Esculturas foram roubadas, outras depredadas e não tem nem câmeras para dar segurança”, afirma Ladjane Melo. “Roubaram uma escultura de uma tonelada e ninguém viu, mas nas ruas a Prefeitura faz big brother na indústria das multas”, acrescenta. “Esse Prefeito devia ser processado por negligência com o patrimônio público”, sugere Ubirajara Lopes, do Grupo Amantes do Recife. “Pelo tamanho da obra (roubada), a gente vê que é uma quadrilha especializada”, acrescenta Maria Cristina H. Agenor Tenório, do Grupo MeninXs na Rua, lamenta que o problema seja muito mais amplo. Lembra que há muitas obras de Francisco Brennand espalhadas pela cidade. “Estupidamente a maioria delas está depredada”.

E acrescenta: “Uma das que mais sinto esse problema é o painel sobre as invasões holandesas que fica numa transversal da Avenida Dantas Barreto”. Ele se refere ao mural Batalha dos Guararapes, datado de 1962, na agência do Santander, na Rua das Flores. “Essa obra tem uma beleza indescritível”. Afirma que entre as pouquíssimas obras bem conservadas do artista,  encontram-se a que fica em frente ao Comando Militar (no Curado) e uma segunda, próximo ao Colégio Salesiano, no bairro da Boa Vista. “O resto é tristeza, em termos de preservação”. Para a economista e poetisa Anita Dubeux, o que aconteceu  é “inconcebível e tamanho absurdo”.

Afirma que, pelo que se vê, “o Recife não mereceu a generosidade de Brennand”. Reclama o fato do poder público ser omisso quanto à destruição do patrimônio cultural, histórico e arquitetônico da cidade. “Não existe sequer uma ação desta gestão para preservar nada dentro do Recife”, reclama Ania Costinha. Teve gente sem acreditar no roubo de uma escultura pesando uma tonelada e com 20 metros de comprimento.

“Levaram a Serpente?....”, indagou Isadora Alves. “Na Oficina Brennand, na Várzea, há uma frase em uma escultura que resume essa situação: “The horror”. Já Luís Wolfbood ironizou: “Ao menos, o membro viril está de pé”, disse, referindo-se à polêmica Coluna de cristal. “A pica de Brennand”, ninguém leva, ironizou, também, Fábio Dantas. Pelo Facebook, Melício Oliveira afirma: “Sou curioso em saber o que pensa o gestor público quando ouve uma denúncia dessa”. Sei não… Ao que parece… isso é normal…. Na verdade, nossos gestores não parecem ter muito apego ao patrimônio cultural  e histórico do Recife. E o Parque de Esculturas é apenas um exemplo.

Dêm uma olhada nas nossas praças históricas (como a Maciel Pinheiro e a Dezessete), nas esculturas deixadas por artistas como Abelardo da Hora, no Mercado de São José,  em pátios como o de São Pedro e o do Terço. Até mesmo nas luminárias de LED, verdadeiros monstrinhos, que estão desfigurando os projetos originais de Praças como a de Apipucos e a José Vilela. É assim que, aos poucos, o Recife perde sua história e sua identidade. Nas redes sociais, começou a circular essa postagem  de Liana Cirne, vereadora eleita. Veja o recado de mais uma pessoa indignada.

“Urgente. Por meio de denúncia de @laursatours tomamos conhecimento de que as obras de Francisco Brennand, Serpente e Pelicano, foram furtadas do Parque de Esculturas, no último final de semana. Naturalmente, isso somente aconteceu em razão do descaso da prefeitura do Recife com esse espaço privilegiado da nossa cultura e do nosso turismo. O abandono do parque é uma realidade evidente para quem frequenta este lugar mágico. Mas esse post não é uma denúncia. É um pedido de socorro. A especulação é que as obras serão derretidas a fim de vender as mais de oito toneladas de cobre que as esculturas foram feitas. Precisamos mobilizar a sociedade para salvaguardar o nosso patrimônio cultural! Se você tem qualquer informação sobre esse crime, DENUNCIE para o Disque Denúncia. Vamos nos unir para que as esculturas sejam resgatadas e esse crime seja punido. Compartilhe!

A La Ursa fez a denuncia no momento em que ouviu o barulho das peças sendo retiradas ao posto policial que fica na Avenida Alfredo Lisboa, ao lado do Marco Zero. Mas nada aconteceu. E o assunto só ganhou dimensão nacional e na chamada grande imprensa depois que o #OxeRecife noticiou o fato. Que vergooooooooooooooooonha…..

Leia também:
Instituto Oficina Francisco Brennand: O Recife não merece tamanho desrespeito
Parque das Esculturas pilhado. Cadê a serpente que estava aqui?
Arte monumental & natureza generosa
A voz do eleitor: Que prefeito respeite mais o Recife e o recifense
Vá de bike com a La Ursa Tours
Que breu é esse na Torre de Cristal?
Torre de Cristal não pode apagar: Trevas onde devia haver luzes
Mural sobre Restauração Pernambucana precisa de reparos
Estátua de Ariano no chão
Uma “pérola” na comunidade do Pilar
Fórum Arte Cidade movimenta o Recife
Monumento ao maracatu pilhado
Os remendos nas pedras portuguesas
Vandalismo dá prejuízo de R$ 2 milhões
Apipucos: Adeus às antigas luminárias
Cine Glória: Art-Noveau e decadência
Cine Glória agora é Lin-Lin
Pátio de São Pedro está sendo pilhado
Que horror: Pátio de São Pedro fica sem lampiões até depois de julho
Cadê os lampiões da Ponte Velha?
Ponte da Boa Vista ganha abraço
Ponte da Boa Vista pede socorro
Ponte da Boa Vista: efetuada reposição mas faltam reparos
Bonde vira peça de museu e trilhos somem do Recife sem memória
Recife da paisagem mutilada
Secular Magitot vira ruína na Várzea
A cidade que precisamos
Hamburgo e Recife: semelhanças

Aos 483, o Recife é lindo? Veja fotos
Com Hans, entre o barroco e o rococó
De olho nas luminárias da Bom Jesus

Art Déco: Miami ou Recife?
Passeio do estilo colonial ao moderno bossanovista
Vamos salvar o centro do Recife
Caminhadas Domingueiras: Mergulho no estilo neocolonial no Recife

Você está feliz com o Recife?
O índice de felicidade urbana do Recife
Viva 2018, Recife
O Recife que queremos, em 2019
Recife, cidade parque em 2037
Recife se prepara para os 500 anos
Uma cidade boa para todo mundo
Recife, mangue e aldeões guaiás
Livro mostra mania pernambucana de grandeza: “O mundo começava no Recife”
Livro mostra jardins históricos do Recife
Estátua de Ariano no chão

Texto: Letícia Lins/ #OxeRecife 
Fotos: Roderick Jordão / La Ursa Tours / Cortesia

Compartilhe

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.