Machismo, baixaria, cães raivosos e o exemplo das ruas no Recife

Já cobri muitas eventos eleitorais ao longo de minha vida de jornalista. Mas posso dizer – sem medo de errar – que o segundo turno na disputa pela Prefeitura constituiu uma das campanhas mais sórdidas que já assisti no Recife. Envolveu disputas familiares (CamposXArraes e ArraesXArraes), expondo as delicadas dissidências dos dois clãs.

E também houve registro de muita lavagem de roupa suja que devia ser em casa. Sobraram  fake news nas redes sociais, panfletagem com informações falsas, atribuições indevidas sobre crédito religioso. Houve até uma dosagem forte de misoginia, em que os alvos foram duas mulheres:  Marília Arraes (candidata do PT) e Renata Campos (viúva do ex-Governador Eduardo Campos e mãe do candidato do PSB, João Campos). Acusações eram grosseiras, carregadas de machismo, o que deve ter deixado revoltada uma boa parte do eleitorado feminino. Talvez por isso, o socialista tenha passado a enfatizar que, se eleito, 50 por cento dos cargos de decisão serão das mulheres em sua gestão.

Já Renata não tem mandato, mas é uma das pessoas politicamente mais influentes de Pernambuco.  Só a chamam de “a viúva”. Se tivesse  sido ela a vítima do acidente aéreo, alguém estaria chamando o ex governador e ex presidenciável Eduardo Campos só de “o viúvo”? Com certeza, não. Mas a ex-primeira dama tem sido tratada assim  não só por políticos como até mesmo por jornalistas. Houve divulgação de cartas, trocas de insultos e acusações à “viúva”, quase comparada a uma bruxa. Renata ficou calada e não respondeu às acusações. Continuou agindo nos bastidores como é do seu feitio.

Mas Marília também foi atacada sem dó. E ficou no meio de muita baixaria. Teve que dar o troco, e entrar no jogo respondendo à altura, citando fatos polêmicos dos aliados que a acusam como os “respiradores para porcos” comprados pela Prefeitura (que é do PSB) e que se destinavam ao tratamento de pacientes da Covid. utilizou o último guia eleitoral, na noite de sexta-feira, para dar o troco aos agressores citando fatos desabonadores da gestão do PSB. “Como quem está na frente é uma candidata mulher, o ataque é mais pesado, mais cruel e vem cheio de machismo e desrespeito”, reclama

“Quem é mulher sabe disso, porque convive com isso todos os dias. Seja quando está em busca de vaga para emprego ou lutando para ser a primeira mulher prefeita da cidade”, disse no guia  no último dia de propaganda eleitoral gratuita. Vi muita gente definir o voto depois da sujeira na campanha e, principalmente,  depois da forma como a petista vinha sendo bombardeada.

Nas ruas, no entanto, a militância (grande parte paga) deu exemplo de civilização. Enquanto vinha hoje da Zona Sul (Boa Viagem)  para a Zona Norte (Apipucos), encontrei numerosos grupos em esquinas e cruzamentos, incluindo estes da foto maior, que agiam na orla. Tudo misturado: vermelho e amarelo.Todos convivendo harmoniosamente, sem discussão nem patifaria, agitando bandeiras e distribuindo adesivos e panfletos. Um exemplo para os cidadãos – políticos e apaniguados – que se transformam em cães raivosos em época de eleição.

Apesar de tudo, a democracia é linda. Nada como o povo para decidir o seu destino. Mas seria muito mais linda se a ética, a honestidade e a verdade estivessem na  cartilha dos políticos.  E que as eleições ocorressem sem tantas canalhices. Ontem à noite até tentei assistir um terceiro debate entre os dois candidatos, dessa vez exibido pela TV Globo.  Mas perdi a paciência já no segundo bloco. Repeteco, troca de acusações, promessas que jamais serão cumpridas. Vamos ficar de olho pois…

Veja o exemplo de convivência política entre as militâncias, nas ruas do Recife:

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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