Torre de Cristal não pode apagar: trevas onde devia haver luz

É muito triste ver uma cidade como o Recife, tão bonita, jogada às baratas. Já não basta a situação de nossas praças, cada dia mais mal cuidadas, sem gramado, com as plantas morrendo, cheias de lixo e com bancos quebrados.  Já não bastam a Ponte da Boa Vista em pedaços, a Ponte Velha  e o Pátio de São Pedro sem os centenários lampiões, para se perceber o quanto o Recife está “jogado”, como costuma dizer a gíria popular.

O último exemplo disso percebi na última terça-feira, quando estive com amigos no Cais do Sertão, para participar da cerimônia de entrega do Prêmio Vasconcelos Sobrinho, conferido pela Agência Estadual do Meio Ambiente (Cprh) a pessoas que defendem a natureza. Ao final da solenidade, fui até a cobertura do prédio, para contemplar a paisagem iluminada da cidade no Marco Zero, no Bairro do Recife (Recife Antigo).

Mas ao chegar lá com três amigos – Conceição Campos, Alexandre Cesário Trindade e Vânia Patriota – os quatro tiveram uma decepção em comum: a Torre de Cristal, a mais alta do Parque de Esculturas criado porFrancisco Brennand estava no escuro. Aliás, todo o parque está no breu. Ou seja, um turista que vai ao Marco Zero, à noite,  para contemplar a obra de Brennand, não  pode ver o parque iluminado. Aliás, não pode ver nada. Porque ele está todo apagado.

No Recife, parece que há uma tendência de se desvalorizar o que a cidade tem de bom na sua arquitetura, na  história, até mesmo no seu patrimônio verde. Com o falecimento do artista – na última quinta-feira – o Parque de Esculturas ganha o sentido de um patrimônio cultural, uma relíquia que não pode ser tão abandonada. Implantado para assinalar os 500 anos do Brasil, o Parque tem um obelisco com 32 metros de altura, a Torre de Cristal. Ao todo, possui 90 esculturas, das quais oito foram feitas por encomenda.

A parte restante é  formada de doações do próprio artista. Ao perceber que a obra perdia em amplitude, diante da moldura tão grande a ele destinada – entre o Marco Zero e a linha do horizonte – Brennand decidiu que o  Parque precisava de quantidade de esculturas pelo menos dez vezes maior do que o inicialmente projetado. Se as esculturas já deveriam ter sido valorizadas com Francisco Brennand vivo, com o artista morto, vai precisar ainda de mais cuidado. E mais carinho. Essa foto daí, eu fiz em uma ocasião rara: a torre estava iluminada durante os festejos do aniversário do Recife, no mês de março deste ano. Desde então, é o que vocês estão vendo. Basta chegar no Marco Zero, à noite, para observar trevas onde devia haver luz.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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