O “povo ferido” da festa do Morro

“Maria, mãe de um povo ferido” –  o tema da 115ª edição da Festa de Nossa Senhora da Conceição do Morro – faz jus à realidade social do Recife, cidade que em pleno século 21 ainda deixa a maioria da população sem direito a saneamento, moradia digna, emprego, segurança e em situação de pobreza crescente. A prova disso  está  na miséria exposta nas ladeiras que dão acesso ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição,  em Casa Amarela, Zona Norte do Recife. Ali, os esgotos escorriam hoje a céu aberto, com trechos encobertos por pedintes.

É que só não se via esgoto escoando em toda a extensão da  ladeira abaixo, porque uma multidão de mendigos tapava as canaletas  com pedaços de madeira, onde colocaram tralhas, cobertas e assentos de papelão, que serviam de acomodação para pedir esmolas. O que aliás, não é inédito, mas parece que em 2019 a quantidade de miseráveis em busca de trocados foi maior. Todos os anos subo a ladeira no dia 8 de dezembro. E nunca vi tantos pedintes em todos os lugares. Povo ferido, sim, nos seus direitos tão fundamentais.

Para quem teve oportunidade de se virar, não pedindo, mas trabalhando, a manifestação religiosa foi uma festa. As lojas temporárias de artigos sacros eram as mais disputadas. E em 2019, uma nova santa se incorporou às camisetas que, nessa época, ostentam a imagem de Nossa Senhora da Conceição. A Santa Irmã Dulce, recentemente canonizada, também estava à venda.

Na ladeira de acesso ao alto, o comércio era variado: canecas, chaveiros, cofrinhos (foto), calcinhas, sutiãs, chapéus, flores, velas,  terços de todos os camanhos, toalhas estampadas com Nossa Senhora da Conceição, brinquedos de plástico, água mineral, bolos em fatias, cachorros quentes. Muita gente lucrou, também, alugando a casa ou uma parte dela para o comércio.

O fininho (E) – antes quase desaparecido na Festa de Nossa Senhora da Conceição – voltou com toda força. No ano passado, havia apenas um tabuleiro vendendo o doce, no mesmo sentido a ser percorrido pela procissão. Em 2019, contei pelo menos seis vendedores do fininho também chamado de confeito que, era comercializado em três tamanhos por R$ 3, R$ 5 e R$ 10

A Emlurb fez a sua parte. Está trabalhando um batalhão de garis (efetivo de 620 trabalhadores, 150 por dia).  Estive no Morrro há pouco mais de duas semanas e posso dizer, com segurança, que as vias de acesso hoje estavam mais limpas do que em dias comuns. Na limpeza, problema ficou com os banheiros químicos. Não deram vencimento à demanda e tinha sujeira escorrendo pela rua. Fedor.

A Festa não acaba nesse dia 8 de dezembro. Prolonga-se até amanhã, fechando um ciclo de doze dias, dois a mais do que nos anos anteriores. Até o momento, tudo na tranquilidade. Não vi nenhum ato de violência. O que presenciei foi muita fé.  Gente subindo as ladeiras de pés descalços, com flores e velas para ofertar à Nossa Senhora da Conceição, com roupas brancas ou azuis.  Os administradores do Santuário pediram aos fiéis que não façam promessas “radicais”, como subir o Morro de joelhos, nadando (imaginem, nadar no asfalto). Mas isso não impediu que alguns pagadores, como no vídeo abaixo, fossem reverenciar a Santa andando de joelhos. Não tive coragem de perguntar à moça o motivo de se impor esse sofrimento. Mas a julgar pelo doloroso percurso, ela deve ter alcançado uma graça muito grande. E foi depositar o valor do milagre com um “cheque” do tamanho da gratidão e de sua fé.

 

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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